terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Copa do Mundo é nossa?

Pressa e excesso de trabalho elevam risco de acidentes em obras no Brasil


Do IHU On Line


As mortes ocorridas nas obras de estádios da Copa do Mundo de 2014 colocam em evidência as falhas de segurança nos canteiros de obra brasileiros. Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, a pressa para cumprir prazos e as altas cargas horárias cumpridas por operários são hoje as maiores causas de acidentes no país.


Até agora, sete operários morreram em obras das arenas da Copa no país. Cinco deles foram vítimas de acidentes violentos - desde quedas ao desabamento de um guindaste no Itaquerão, em São Paulo. Os outros dois foram vítimas de "mal súbito", nomenclatura genérica dada por autoridades a doenças como infartes ou acidentes vasculares.

Para se ter ideia, na África do Sul, onde também ocorreram inúmeros atrasos de cronograma, a preparação dos estádios causou duas vítimas fatais.

A reportagem é publicada por BBC Brasil, 17-12-2013.

As estatísticas mais recentes do Ministério da Previdência Social (divulgadas em outubro) registraram mais de 62 mil acidentes - de diferentes gravidades - no setor da construção civil no ano de 2012.

O número representa um aumento de 12% em relação aos casos ocorridos nos dois anos anteriores. Contudo, no mesmo período, o crescimento de empregados no setor também foi de 12%, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. O governo não tem números atualizados sobre mortes no setor. O mais recente se refere a 2011: 471 casos.

No Estado de São Paulo - onde dois operários morreram em novembro nas obras da Arena Corinthians - a alta no número de mortes foi significativa, segundo dados do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil). Foram 24 casos neste ano contra sete em 2012.


Pressa


"O setor da construção civil vive um momento de aquecimento e o ritmo elevado das obras, que têm prazo para serem entregues, acaba levando ao aumento nos acidentes de trabalho", afirmou à BBC Brasil o procurador Philippe Gomes Jardim, da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho (Codemat), do Ministério Público do Trabalho da União. "O aumento no ritmo de trabalho não vem acompanhado de mais segurança", afirmou.

Segundo ele, quanto mais longas forem as jornadas de trabalho e menores os intervalos de folga, mais desgastado ficará o trabalhador e, portanto, mais sujeito a acidentes. "É um círculo: o mercado exige velocidade da construtora, que exige do trabalhador, que acaba em situação de maior risco".

Segundo o professor João Roberto Boccato, especialista em segurança do trabalho da Unicamp (Universidade de Campinas), as construtoras estão mais preocupadas em cumprir os cronogramas de obras do que em cumprir a legislação prevencionista.

"O não-cumprimento dos prazos envolve multas, que muitas vezes são bem maiores do que o custo dos acidentes. Falta em qualquer projeto no Brasil uma análise preliminar de riscos feita por profissionais da área de segurança", afirmou Boccato.

Ele disse que a maioria dos contratos de obras falha ao não prever atrasos para a realização de melhorias para prevenir acidentes. "Os contratos também deveriam prever pagamentos de multas maiores por acidentes de trabalho", disse.


Horas extras e empreitada


Segundo Sebastião Geraldo de Oliveira, desembargador do Tribunal Superior do Trabalho de Minas Gerais, adota-se com certa frequência no setor da construção civil o pagamento rotineiro de horas extras que, por serem sistemáticas, acabam diminuindo o tempo de descanso do trabalhador. "Isso (horas extras) não deveria ocorrer com tanta frequência, mas no Brasil existe a cultura da hora extra habitual, como se o fato extraordinário fosse um fato corriqueiro".


Em alguns casos, os empregadores fazem pagamentos de forma ilegal para horas extras não registradas, segundo Antônio de Souza Ramalho, vice-presidente da Força Sindical, presidente do Sintracon e deputado estadual em São Paulo pelo PSDB.

"É o trabalho por empreitada. Paga-se 'por fora' para aumentar o ritmo da obra", disse RamalhoDe acordo com ele, um operário comum (pedreiro, encanador, carpinteiro, etc.) costuma ter registrado na carteira de trabalho um salário mensal na faixa de R$ 1,5 mil. Contudo, uma vez em atividade na obra, ele passaria a receber por tarefa cumprida (empreitada) - o que poderia elevar seus rendimentos a até R$ 7 mil por mês.
Isso significa, segundo Ramalho, trabalhar de 12 a 16 horas por dia e não ter o serviço "por fora" registrado para fins previdenciários ou para contar no 13º salário.

Ramalho
afirmou ainda que alguns trabalhadores usam entorpecentes para aguentar as longas jornadas de trabalho - o que aumenta ainda mais o risco de acidentes. A droga mais comum nos canteiros de obras seria o oxi, um derivado da cocaína preparado a partir da pasta base do entorpecente misturado a cal e querosene.



Fiscalização


O deputado também afirmou que não haveria fiscais suficientes para visitar todos os canteiros de obras. Eles são necessários para garantir o cumprimento de normas de segurança e impedir o excesso de trabalho dos operários.

Segundo Boccato, além disso, a fiscalização não é suficiente porque o valor das multas é baixo. Ele cita como exemplo o caso de uma empreiteira com obras em um aeroporto no Estado de São Paulo, que já teria sido multado diversas vezes por ação do Ministério Público - devido a irregularidades na questão de prevenção de acidentes. "Mas por que estas obras continuam? Porque o valor das multas é muito pequeno em comparação com o custo do atraso da obra", afirma.


Segundo os especialistas, a responsabilidade para esses problemas deve recair tanto nas construtoras como no poder público e nos próprios operários e seus sindicatos.

A BBC Brasil entrou em contato com o Sinicon, o sindicato patronal da construção pesada, para comentar a questão da insegurança em canteiros de obras mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Economistas afirmam que governo superestimou benefícios da Copa

Na Porto Alegre do "melhorou, vai melhorar", o que melhorou mesmo? As famílias da Avenida Tronco esperam, até hoje, suas casas!

Economistas afirmam que governo superestimou benefícios da Copa


Vinicius Konchinski

Do UOL, no Rio de Janeiro


Geração de 720 mil empregos, atração de 600 mil turistas estrangeiros e impactos econômicos de até R$ 142 bilhões. Esses são alguns dos benefícios citados por representantes do governo brasileiro para justificar a realização da Copa do Mundo de 2014 no país. Os números constam de estudos feitos por consultorias renomadas, a Ernst & Young e a Value Partners, que estimaram em 2010 os efeitos do Mundial da Fifa sobre a economia nacional.
Três anos depois, entretanto, esses dados estão sendo contestados por economistas de importantes universidades brasileiras. Dois trabalhos, um feito na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e outro na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), debruçaram-se sobre as projeções otimistas já divulgadas e chegaram a uma conclusão comum: os benefícios da Copa de 2014 foram superestimados.
Isso é o que diz um artigo assinado pelo professor do Instituto de Economia da Unicamp, Marcelo Proni, publicado ainda em 2012. O trabalho foi feito em parceria com o economista Leonardo Oliveira da Silva, que também estudou na Unicamp. Segundo o texto, "estudos [usados pelo governo] introduzem hipóteses que simplificam demais as projeções e ignoram preceitos econômicos" com a intenção de "alimentar altas expectativas em relação aos efeitos positivos da Copa".

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ajude a eleger a FIFA como a pior corporação do mundo!



FIFA, A PIOR DO MUNDO

VOTE >> http://publiceye.ch/en/case/fifa/

Os Comitê Populares da Copa e Olimpíadas de todo o Brasil indicaram a FIFA como a pior corporação do mundo, para divulgar para todxs as consequências da Copa do Mundo no país. Para ajudar a elegê-la, vote acessando o seguinte site: http://publiceye.ch/en/case/fifa/

O texto do site está em inglês, pessoal, mas é facinho: para votar, clique no link "voting", na parte superior do site. Depois, vá até o "caso FIFA" (pois há várias violações cometidas por outras corporações) e vote clicando nela.

O Public Eye Awards é conhecido como o "Nobel" da vergonha corporativa mundial. Criado em 2000, o prêmio é concedido anualmente à corporação vencedora, escolhida por voto popular em função de problemas ambientais, sociais e trabalhistas, durante o Fórum Econômico Mundial, na cidade suíça de Davos.


VOTE NA FIFA E COLABORE COMPARTILHANDO O POST E O LINK! http://publiceye.ch/en/case/fifa/


terça-feira, 19 de novembro de 2013

De Copa em Copa, na Porto Alegre da Participação Popular

Campanha Chave por Chave, do Comitê
Popular da Copa e moradores da região, exige
a construção das casas novas na Tronco.
Foto: Ramiro Furquim/ Portal Sul 21
Matéria bacana do jornalista Daniel Cassol, publicada na Revista da ADUSP (Associação dos Docentes da USP) de Outubro.

"Na Porto Alegre da participação popular, as obras da Copa do Mundo de 2014 removem árvores — e também 4.600 famílias. Tida como exemplo de transparência, a capital gaúcha obteve a maior pontuação entre as 12 cidades-sede da Copa em ranking elaborado pelo Instituto Ethos. Mas os relatos de moradores atingidos pelas remoções, movimentos sociais e urbanistas vão no sentido contrário: a Prefeitura de Porto Alegre está violando o direito à moradia. A especulação imobiliária expulsou as populações mais pobres para bairros afastados"

Continue lendo a matéria neste link:  http://adusp.org.br/files/revistas/55/mat02.pdf

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Neste sábado (2/11), na Divisa, na Cruzeiro e no Cristal - Diálogos Locais: Remoções e o Direito à Cidade

- Divisa Cruzeiro Cristal -

No dia 2 de novembro, a partir das 15 horas, ocorrerá a atividade “Diálogos Locais: Remoções e Direito à Cidade”, na Escola Alberto Bins, Avenida Tronco, nº 150, entrada em frente ao posto de saúde da Cruzeiro.

Após breve apresentação sobre a região, convidaremos os participantes para uma caminhada pela obra de duplicação da Avenida Tronco que afetará a realidade e o cotidiano de mais de 1.400 famílias. O local escolhido se dá em vista das remoções em função da Copa do Mundo de 2014, e tem como propósito trocar experiências sobre as mudanças na vida e no tecido social urbano decorrentes desse megaevento.

Num encontro entre moradores da região, convidados e assessores populares, teremos a possibilidade de conhecer um dos principais territórios que está sendo transformado na cidade de Porto Alegre. Essa atividade é parte do IV Encontro Regional das Assessorias Jurídicas Universitárias, que congregará as assessoria populares da região sul, sudeste e centro-oeste do Brasil, maiores esclarecimentos e inscrições podem ser feitas através do endereço http://eraju2013.wordpress.com ou telefone (51) 3308-3967.

Apoiam essa iniciativa: Fórum Estadual de Reforma Urbana-FERU, Comitê Popular da Copa Porto Alegre, Associação dos Geógrafos Brasileiros AGB- Porto Alegre, Centro de Direitos Econômicos e Sociais, Acesso-Cidadania e Direitos Humanos, Movimento Nacional de Direitos Humanos- MNDH-RS, Quilombo do Sopapo, CEBs Porto Alegre, Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa, Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos CEEDH-RS.

Participe!

Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária
Serviço de Assessoria Jurídica Universitária - Faculdade de Direito -  
SAJU/UFRGS - Sede do Encontro

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sul 21: “As violações já estavam em curso mesmo antes da Copa do Mundo”, afirma Leandro Anton

Entrevista do Sul 21 com Leandro Anton, geógrafo, coordenador do ponto de cultura Quilombo do Sopapo e integrante do Comitê Popular da Copa Porto Alegre.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Iuri Müller/ Do Sul 21
Ainda que Porto Alegre tenha visto passar pelas suas ruas diversas e heterogêneas formas de manifestação nos últimos meses, a cidade já abrigava a atuação de coletivos e articulações sociais há mais tempo. Eram grupos que reivindicavam o direito de utilizar os espaços da cidade e questionavam as transformações urbanas que, se não fossem freadas, poderiam entregar importantes espaços de Porto Alegre para a iniciativa privada. Apesar de vitórias pontuais, em tempos de Copa do Mundo há insatisfação entre os moradores da Zona Sul que tiveram a vida modificada por obras como a duplicação da Avenida Tronco, que prevê a remoção de mais de mil famílias na Vila Cruzeiro.
Para o geógrafo Leandro Anton, coordenador do ponto de cultura Quilombo do Sopapo, situado no bairro Cristal, os novos movimentos, ainda que se espelhem em exemplos clássicos da luta social brasileira, se organizam de forma distinta e sofrem com alguma instabilidade. Em entrevista ao Sul21, Anton critica os métodos impostos pela Prefeitura de Porto Alegre nas remoções da Zona Sul – onde se utiliza de artifícios como o bônus moradia e o aluguel social – e afirma que o que acontece hoje já estava em curso desde a gestão do ex-prefeito José Fogaça, muito antes dos investimentos públicos para a Copa do Mundo.
Sul21 – Nos últimos meses, observamos em Porto Alegre o crescimento de diversos movimentos que não se estruturam da maneira como estávamos acostumados. Não têm o tamanho e a organização do MST, por exemplo, mas geraram uma forte repercussão no âmbito local.
Leandro Anton – Penso que uma característica bem marcante do que está acontecendo  são  as mobilizações que atuam dentro da cidade. A gente está num momento em que tem de fato grandes eventos, em especial Copa do Mundo, que afetam diariamente a vida da população. É um processo do meio urbano. Se pegar o caso de Porto Alegre, há atores bem novos neste processo, tirando algumas associações de moradores, que não são os articuladores do movimento principal, mas que estão sendo apoiadas para ter a garantia de seus direitos. Em geral são pequenos grupos, coletivos de atuação cultural, da área ambiental. Também participam militantes de grandes movimentos, como o MST, o movimento da luta pela moradia, que se integraram a esta articulação, mas de uma maneira distinta.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Nesse mesmo período, outros movimentos se articularam, como o Comitê Popular da Copa e a luta pelo morro Santa Tereza” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Com relação ao que aconteceu aqui em Porto Alegre, penso que é bem importante que houve uma explosão de um processo que vinha sendo construído na questão dos aumentos de passagens nos últimos três, quatro anos, mas que não tinha atingido esta intensidade. Nesse mesmo período, outros movimentos se articularam, como o Comitê Popular da Copa e a luta pelo morro Santa Tereza, que já tem outro recorte e vinha sustentando uma discussão com relação à cidade. Mas eram extremamente localizados, um movimento digamos comunitário. Não quero distinguir movimento comunitário de movimento social, mas a escala é outra. É um movimento social, sim, local, mas que não tem essa capacidade de propôr um projeto de país, por exemplo.
Outra coisa interessante de se ver são os exemplos do Massa Crítica em Porto Alegre, de situações como o Largo Vivo, o Defesa Pública da Alegria, festas como a do Dia da Biodiversidade, que também estavam gerando processos bem pontuais, mas que mantinham alguma ação. Tinha o Tutti Giorni, por exemplo, que é um acontecimento desse processo da cultura urbana, uma necessidade de ir para a rua que não tem apelo comercial. Houve também a ocupação da Praça da Matriz por um bom tempo, em alusão ao 15M da Espanha, as questões que estavam acontecendo na Europa, uma série de situações que estão indicando novas formas… E não só indicando, estão acontecendo por aqui. E há também surpresas, porque a explosão foi uma surpresa. Ninguém ia dizer que de uma hora para a outra iam surgir 20 mil pessoas na rua. Mas tudo o que estava acontecendo antes parecia mostrar que algo maior poderia ocorrer.
Em meio a isso, houve uma situação muito forte, que para mim é a situação mais bem acabada deste processo – e estou falando em primeira pessoa mesmo – que foi a ocupação da Câmara de Vereadores. Eu vi uma estabilidade fantástica, nada daquilo que era retratado como vandalismo, depredação, uma coisa não pensada. Havia um objetivo claro, que era o acesso às planilhas de custo das empresas de ônibus, que tinha sido negado pelos vereadores. Um elemento concreto, justo. Se tu colocares isso para qualquer pessoa ou cidadão, ele vai dizer: “é motivo, sim, para ocupar a Câmara de Vereadores”. E estavam ali partidos políticos, coletivos pequenos, pontos de cultura, sindicatos, houve um acordo para permanecer, pensar em outras pautas. Mesmo que se possa dizer “havia pessoas mais pensantes”, eram realizadas assembleias durante todo o tempo, qualquer um poderia se manifestar.
Sul21 – E bem pouco depois deste acontecimento político, não se perdeu parte do que o movimento havia conquistado?
Leandro Anton – Aquele (cenário construído na Câmara) era um elemento fantástico, mas logo depois tem um esfacelamento inclusive daquela organização. Durante um ano, olhamos um cenário instável. Mas olhando enquanto um processo maior, em virtude dos desafios que temos como país ou como estado, a escala é grande. Então o movimento local, que é instável, não tem como fazer frente. Agora, acredito que por dentro disso tem construções que estão avançando bastante. E cito a ocupação da Câmara como um exemplo de que é possível, assim como foi a vitória do morro Santa Tereza. Há questões possíveis, mas elas são pontuais. Mas tenho que dizer que esta é a análise de um militante, não de intelectual, e nem de alguém que fala por um movimento.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Houve uma energia, houve alterações de votações, houve processos importantes, inclusive de segmentos sociais que não estavam conseguindo colocar suas pautas tanto no Congresso quanto na Câmara” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Penso que há um caminho construído e que não foi compreendido até agora pelas instituições, nem pelos grandes movimentos sociais. E, pelo contrário, em vez de buscar ali inspirações e renovação de como se portar diante das situações que não foram resolvidas pelos governos, que esses próprios movimentos apoiaram para chegar ao poder, resolveram diminuir este novo processo. Não foi só a mídia que desprezou o que aconteceu nas ruas. E acho que isso não ajuda, porque houve uma energia, houve alterações de votações, houve processos importantes, inclusive de segmentos sociais que não estavam conseguindo colocar suas pautas tanto no Congresso quanto na Câmara. Houve reversão de processos, como aconteceu lá no Rio de Janeiro em relação ao Museu do Índio, para ficar num exemplo. Ou seja, tem resultados concretos e reais, e não foram trazidos pelos movimentos tradicionais, pelos grandes movimentos sociais, que são ainda a referência desses grupos.
Essa galera que está ali tem referência exatamente nisso, ela não nega a existência deles e nem dos partidos que fizeram parte da vida de muitos que estão ali dentro, que foram fonte de inspiração e inserção no movimento. É ruim a postura dos movimentos sociais e das centrais sindicais em buscar explicação do que aconteceu desconstruindo esses grupos. É muito ruim também reproduzir o discurso de categorização entre “vândalo” e “manifestante”. Isso foi criado pela mídia, a maioria é manifestante e a minoria é vândalo. É uma relação com passividade, não é nem pacifismo, é com a passividade, numa busca para apaziguar. Mas não há o que apaziguar numa situação dessas, é preciso encontrar respostas concretas.

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SBT: Ministérios Públicos (MP) de cinco estados entram com ação contra a Fifa

O Ministério Público de cinco estados onde foram realizados os jogos da Copa das Confederações e do Distrito Federal entrou com uma ação contra a Fifa e os comitês organizadores locais. Os promotores pedem que as duas entidades devolvam o dinheiro público utilizado para montar estruturas temporárias nos estádios utilizados.


MP de cinco estados entra com ação contra a Fifa

terça-feira, 22 de outubro de 2013

NOTA DE REPÚDIO DA ANCOP AO TERRORISMO DE ESTADO NO BRASIL #CopaPraQuem?

POLÍCIA PRA QUEM?

NOTA DE REPÚDIO DA ANCOP AO TERRORISMO DE ESTADO NO BRASIL


A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa – ANCOP – vem se manifestar publicamente em solidariedade aos presos e presas no Rio de Janeiro no dia 15 de outubro e repudiar mais uma demonstração de um regime autoritário que se instala e recrudesce no seio do estado democrático de direito, estabelecido formalmente em 1988.

O que poderíamos chamar de “democracia dos massacres” vem se intensificando e generalizando com a aproximação da Copa do Mundo FIFA 2014. Vivemos em um país que tem 600 mil pessoas encarceradas – em sua maioria jovens, negros, negras e pobres -, em que as polícias militares matam cotidianamente jovens negros e periféricos amparadas pela aberração dos “autos de resistência” e que tem, nesses 25 anos de constituição cidadã, mais de 10 mil desaparecidos como Amarildo de Souza.  É um estado que tem na sua história recente uma lista extensa de chacinas e massacres como o do Carandiru (1992), dos crimes de Maio (2006) e da Maré (2013) – apenas para citar três - e especialmente desde junho, vem crescentemente realizando prisões para averiguação (inconstitucionais), criminalizando os manifestantes nas ruas por “formação de quadrilha”, perseguindo e ameaçando militantes de movimentos sociais, invadindo suas casas e espaços politicos para apreender computadores e livros (sic), como vimos recentemente ao menos em Porto Alegre, Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Um estado que trata conflitos e problemas sociais como caso de polícia, valendo-se inclusive de intervenções militares (como as UPPs e a Operação Cracolândia em SP).

Em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas, nos preocupa em especial os projetos de Lei 728/2011 e 3714/2012, que pretendem tipificar o crime de terrorismo no Brasil com um texto que pode perfeitamente ser utilizado para enquadrar movimentos sociais organizados que para lutar promovem legitimamente a ocupação de terras no campo e na cidade, a paralização de vias e demais formas de ação direta. A Copa das Confederações, marcada por manifestações em todas as cidades-sede, foi também marcada pela presença das forças armadas e polícias militares nas ruas, demonstrando claramente quais são os bens que o estado brasileiro deseja proteger: em vez da vida e da dignidade da população, os estádios de futebol e o espetáculo do grande capital internacional. Não apenas nas ruas, mas na remoção forçada de populações com o pretexto das grandes obras, na perseguição ao trabalho ambulante e informal, na expulsão da população em situação de rua, no aumento da exploração sexual e tráfico de pessoas e na crescente militarização das cidades, o denominador comum é a violência policial e o autoritarismo estatal que segue criminalizando, reprimindo e encarcerando a população como se fossemos um inimigo de guerra. Porém, o avanço do terrorismo de estado vai além.

Em agosto passado foi aprovada, pela Presidenta Dilma Rousseff, a chamada “lei das organizações criminosas” (Lei 12850). Esta lei, que entrou em vigor em setembro, assim define: “considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional”. Essa lei recém aprovada vem sendo utilizada contra aqueles que ousam se manifestar contra esse estado. Ora, sabemos que os manifestantes não tem objetivo de obter qualquer vantagem, que não seja a justiça social e a liberdade que nos é garantida pela constituição. Sabemos que lutar não é crime, portanto não poderia jamais ser aplicada a referida lei, senão para tentar intimidar e coagir as pessoas a sairem das ruas, deixando de exercer seus direitos políticos. No entanto, dos 65 presos e presas neste 15 de outubro, 31 permanecem encarcerados/as no complexo penitenciário de Bangu, apesar dos esforços desprendidos pelos advogados.

Sabemos, por fim, que armas (mais ou menos letais) não calarão as vozes das ruas, e que a intransigência de um estado autoritário que se recusa a dialogar com a sociedade será respondida com mais democracia direta nas ruas de todo o país, em busca das liberdades democráticas e dos direitos civis, políticos e sociais, direitos que, historicamente recusados, foram tomados com a luta, suor e sangue do povo. A ANCOP se soma e conclama a todos(as) que continuem em luta!

Abaixo o terrorismo de estado! Pela desmilitarização da polícia e da política! Pela libertação imediata dos presos e presas no dia 15 de outubro! Toda solidariedade à luta dos de baixo!

#CopaPraQuem? #NãovaiterCopa!


Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, 18 de outubro de 2013.
http://www.portalpopulardacopa.org.br

No Brasil de Fato: “A presidente do Brasil no momento é a FIFA”, diz Romário

Romário fala ao Brasil de Fato e expõe como a relação entre Copa do Mundo
e política tem violado a soberania do país para satisfazer
os lucros privados de uma entidade internacional


Pedro Rafael,
de Brasília (DF)

Desde que assumiu o mandato de deputado federal, em 2010, obtendo mais de 146 mil votos, o baixinho Romário (PSB/RJ) tem se especializado em outro tipo de artilharia: a política. Nesse campo, seus principais adversários são o presidente da CBF e os desmandos da FIFA no país.


Sua bandeira parlamentar reverberou durante a onda de protestos e mobilizações que está sacudindo a nação. Os exorbitantes gastos com a Copa do Mundo de 2014, que superam, e muito, o que se gastou nas edições anteriores do torneio, tem merecido eloquente repúdio das ruas. “As grandes obras prometidas foram quase todas canceladas”, adverte Romário.



A isso se adiciona a ingerência da entidade máxima do futebol, a FIFA, para organizar a competição no país. “Eles montaram um Estado dentro do Estado”, ataca. A moldura fica ainda mais "revoltante" na figura do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa, José Maria Marin, político remanescente da ditadura militar, dono de uma biografia de triste memória. Sobre os rumos do país com a proposta de uma nova reforma política, Romário se esquiva de opinar, mas reconhece a necessidade de se criar mecanismos de participação popular.



Confira a entrevista:


Brasil de Fato – No país do futebol, o povo optou por sair às ruas em vez de ficar em casa vendo os jogos da seleção brasileira. Para você que hoje detêm um mandato parlamentar no Congresso, de que maneira essas mobilizações podem influenciar nosso sistema político daqui para frente?


Romário – 
Acredito que os políticos perceberam que o povo está atento a tudo que fazemos e que não está satisfeito com o que tem visto. Apoiei e continuarei apoiando todas as manifestações pelo fim da corrupção e dos desvios do dinheiro público. A mudança precisa acontecer e a melhor hora é agora.

O comportamento de senadores e deputados nos últimos dias, acelerando votações de temas importantes, sinaliza mudança de rumo? Como é que tem sido tuas conversas com colegas de parlamento?


Há uma clara sinalização de que as manifestações tiveram efeito imediato, mas é difícil saber se essas respostas não evidenciam apenas um medo de derrota nas urnas em 2014. Acho que precisaremos de mais tempo para avaliar, porque as votações foram respostas a uma crise, é necessário esperar mais alguns meses para verificar se a mudança foi de fato profunda. Vejo muitos discursos inflamados na Câmara esses dias, porém sabemos que poucos são realmente conectados com a população.


Acha que o plebiscito sobre reforma política proposto pelo governo é um caminho de mudança significativa?


Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto. Reforma política é um tema muito complexo, a grande maioria da população não tem conhecimento sobre o assunto. Porém, com certeza, temos que utilizar mais os mecanismos de participação popular.


A FIFA está entre os principais alvos dos manifestantes. Qual a explicação para que uma entidade privada internacional consiga impor ao Estado brasileiro tantas exigências econômicas, políticas e sociais?


A FIFA anunciou que terá R$ 4 bilhões de lucro, livre de impostos, na Copa de 2014. Seu faturamento contrasta com a total falta de um legado efetivo. As obras de mobilidade e outras melhorias estão atrasadas e outras nem saíram do papel. Acho natural que a população se revolte ao perceber que está servindo para que a FIFA encha os bolsos sem ganhar praticamente nada em troca. Como eu já disse anteriormente, o verdadeiro presidente do Brasil hoje se chama FIFA. Ela chega aqui e monta um Estado dentro do Estado.


Você costuma apresentar dados estarrecedores sobre a natureza dos gastos para essa Copa do Mundo. O que é que o povo brasileiro precisa saber sobre isso?


Precisa saber a quantidade de dinheiro que o Brasil está investindo nessa Copa. Saber para onde está indo e como está sendo usado. Quando o Brasil foi escolhido para organizar o Mundial de 2014, o orçamento para o evento era de 23 bilhões de reais, mas agora ronda os 28 bilhões de reais. A África do Sul gastou quatro vezes menos para organizar o Mundial de 2010, e o Japão e a Alemanha quase um terço para organizar os de 2002 e 2006, respectivamente. Porque vamos fazer a Copa mais cara dos últimos tempos é o que o povo brasileiro precisa saber.


O “Fora, Marin” também aparece com força nas ruas. Como o clamor desses protestos pode se converter em mudanças na CBF se isso não depende exatamente do poder público?


Protocolamos na CBF uma petição pública pedindo a saída do Marin do comando da instituição com mais de 50 mil assinaturas. Isso já é um sinal claro de que as pessoas não concordam que a CBF tenha a sua frente uma pessoa com atitudes suspeitas. A CBF precisa ser uma instituição idônea. Por mais que seja uma empresa privada ela usa as cores do nosso país, nosso hino antes das partidas, além de todo apelo popular. São, dessa forma, representantes do Brasil e precisam mostrar uma boa imagem tanto aqui como lá fora.


Na sua avaliação, que tipo de legado a Copa do Mundo pode deixar para o Brasil?


Teremos um pequeno avanço de infraestrutura, mas muito abaixo do prometido e do esperado pelos brasileiros. Porque as principais obras são para atender os turistas, muitas grandes obras que ficariam de legado para a população foram canceladas.


Foto: Alexandra Martins/Câmara dos Deputados