Por Andrea Dip - Blog Copa Pública
A Relatoria da ONU para o Direito à Moradia Adequada criou guias para moradores de comunidades ameaçadas por remoções e também para quem vai participar das operações de despejos.
Neste mês o governo brasileiro completa um ano de silêncio diante de compromissos anunciados à Relatora Independente das Nações Unidas sobre o Direito a Moradia Adequada, Raquel Rolnik, com relação às remoções e reassentamentos de famílias afetadas pelos preparativos para os megaeventos. Segundo informações da relatoria, em maio de 2011 o governo brasileiro havia se comprometido a criar um Grupo de Trabalho para acompanhar o processo das remoções e também um protocolo federativo sobre esse tema e ainda nada foi feito.
“Não sabemos até hoje quantas pessoas serão removidas, para onde elas serão levadas, aonde estão esses projetos. Nada disso existe disponível nem no Rio de Janeiro e em nenhuma das 12 cidades-copa, até porque boa parte dos projetos nem existem” disse a Relatora Especial durante o lançamento do Dossiê Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro.
Para esclarecer moradores em situação de risco de expulsão sobre seus direitos, a relatoria criou o folheto “Querem nos expulsar. E agora?” que explica como e onde procurar ajuda, o que é o direito à moradia, como devem acontecer as negociações e como denunciar abusos e violências. Em paralelo, lançou também o guia “Como atuar em projetos que envolvem despejos e remoções?” para orientar autoridades e gestores públicos, técnicos de engenharia e arquitetura, empreendedores imobiliários e empresas contratadas para obras públicas.
Segundo Joyce Reis e Vitor Nisida, do núcleo de apoio à Relatoria da ONU para o Direito à Moradia Adequada, o material serve para lembrar os dois lados (sociedade e governo) de que normas e padrões internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil, especialmente no que se refere ao direito à moradia adequada, devem ser respeitados em qualquer circunstância: “Infelizmente, os investimentos públicos nos projetos de preparação para a Copa e as Olimpíadas têm colaborado com a violação deste direito humano, provocando remoções, às vezes, violentas. Aqui no Brasil, estamos perdendo a oportunidade de investir no desenvolvimento de nossas cidades e na proteção dos direitos mais básicos dos cidadãos para construir elefantes brancos e fazer obras que despejam inúmeras famílias de suas casas”. Remoções e despejos forçados deveriam acontecer apenas quando não existem mais alternativas, lembram Joyce e Vitor, ressalvando que nestes casos o direito à moradia deve ser assegurado antes de ser feita a remoção.
Sobre a distribuição dos informativos, o núcleo explica que já está sendo feito um trabalho de divulgação para prefeituras, secretarias estaduais e federais, órgãos do setor judiciário, empresas que executam grandes obras há algum tempo: “Em 2011, algumas entidades tais como defensorias Públicas e ONGS reimprimiram os materiais para distribuir entre as comunidades ameaçadas de remoção. Este ano, com ajuda de parceiros, pretendemos reimprimi-los para distribuir entre comitês populares das cidades sede da Copa”.
Qualquer um pode imprimir e divulgar o guia e o folheto. É só baixar os arquivos no site da relatoria ou diretamente aqui:
Querem nos despejar. E agora?
Como atuar em projetos que envolvem despejos e remoções?
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Copa do Mundo: está em curso um processo de “higienização” no Rio de Janeiro
O legado da Copa “será a militarização da cidade para proteger os lucros, com leis de exceção para dar segurança à Fifa e ao Comitê Olímpico Internacional”, diz o membro do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
O dossiê exclusivo feito pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro “ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas”, declara Hertz Leal à IHU On-Line. Segundo ele, a distribuição dos investimentos da Copa do Mundo “segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito”.
Leal reitera que os preparativos para a Copa do Mundo e as Olímpiadas desrespeitam os direitos humanos e a legislação prevista na Constituição, na Lei Orgânica e no Estatuto das Cidades. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele relata as irregularidades que estão ocorrendo no Rio de Janeiro por conta das desapropriações de terras, transferências de terras públicas para setores privados, e as arbitrariedades cometidas pelo poder público. De acordo com ele, as pessoas que tiveram suas terras desapropriadas foram deslocadas para conjuntos habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida que distam de 30 km e 60 km do local onde moravam. “O correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes”.
Leal enfatiza que, apesar da existência de terras públicas em abundância no estado do Rio de Janeiro, o governo não constrói moradias sociais e oferece “aluguel social ou Minha Casa Minha Vida na zona oeste”, a qual, segundo afirma, “é dominada por milícias”. “Tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa”.
O processo de higienização da cidade, conforme ele relata, ocorre também na região sul, no centro e no entorno do Maracanã. Por causa do “maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis”, torna-se “insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos”.
Hertz Leal estudou no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mas não concluiu o curso e foi ser quiosqueiro na praia de Ipanema. Segundo ele, a prefeitura retirou sua permissão para dar a concessão a uma empresa que detém todos os quiosques da orla marítima do Leme ao Pontal. “Fui expulso por não aceitar os contratos abusivos da concessionária Orla Rio, então retornei à atividade política com a cooperativa Orla Legal e participo do Movimento Unido dos Camelôs – MUCA e do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas desde o início em meados de 2010”. Atualmente Leal trabalha como funcionário público federal.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são as novidades apresentadas no dossiê organizado pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro?
Hertz Leal – A novidade é o aprofundamento das análises, pois o nosso Comitê vem da experiência do Comitê Social do Pan. Eu participava do Conselho Popular, uma entidade que se reúne na Pastoral de Favelas e conta também com a Rede de Comunidades Contra a Violência, e principalmente com as pessoas que estão sendo atingidas pelas remoções no Rio de Janeiro. No início de 2010, as remoções ocorriam em razão das chuvas do dia 6 de abril, quando várias pessoas ficaram desabrigadas. Mas, já no final de 2010, começaram a ocorrer as remoções por causa da construção da via Transoeste. A prefeitura começou a derrubar as casas das pessoas à noite, com tudo dentro: chegava a equipe do Choque de Ordem e mandava as pessoas saírem, não reconheciam direito algum, diziam que era área pública, que as residências eram ilegais e derrubavam tudo. Quando havia resistência, a Guarda Municipal arrancava as pessoas de suas casas, das suas lojas. Da Barra da Tijuca para o Recreio, eles aterrorizaram.
Existia uma Defensoria atuante, o Núcleo de Terras e Habitação – NUTH. Foram feitas várias denúncias. Foi encaminhada uma medida cautelar para a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos – OEA. O Comitê Popular da Copa ajudou a organizar a Missão da Plataforma Dhesca em maio de 2011, quando fomos visitar estas comunidades que estavam sendo arrancadas para construção da Transoeste e Transcarioca, além das remoções no Porto Maravilha (centro) e no Tabajaras (zona sul). O Dossiê parte desse relatório, mas temos diversas contribuições tais como a análise das leis de exceção, a modificação do Maracanã, a falta de transparência na apresentação dos dados, projetos e estudos de impactos ambientais e de vizinhança. O dossiê ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade, que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas.
IHU On-Line – Em que sentido os preparativos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas estão violando os direitos humanos? Pode nos relatar alguns casos?
Hertz Leal – Os preparativos para Copa do Mundo e Olimpíadas estão violando os direitos humanos na medida em que não respeitam o direito à moradia, o direito à cidade, pois temos uma legislação muito bem definida desde a Constituição, a Lei Orgânica, o Estatuto das Cidades, tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário. Ou seja, temos leis que determinam, em caso de desapropriação por interesse público, uma indenização justa e prévia. Mas deve-se considerar a moradia como um direito independente de propriedade; deve-se buscar o entendimento e o reassentamento no mesmo local. Depois desses escândalos e sucessivas denúncias, eles continuam oferecendo aluguel social num valor que não dá condições para alugar uma casa na mesma região. A maioria das casas oferecidas dos conjuntos Minha Casa Minha Vida distam de 30 a 60 km do local original, quando o correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, “chaves por chaves”, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes. Esses casos de desapropriação são parte das violações. Devemos ressaltar ainda as perseguições aos camelôs, a precarização do trabalho nas construções dos estádios e outras infraestruturas, o recolhimento compulsório das pessoas em situação de rua para abrigos distantes e sem uma adequada estrutura de atendimento.
Estamos preocupados com as leis de exceção que estão sendo criadas no intuito de conceder direitos de propriedade a marcas e símbolos que são utilizados naturalmente pelos comerciantes informais, ou seja, por aqueles que confeccionam lembranças da cidade e dos jogos e que não poderão ser utilizados. Pelo contrário, serão criminalizados caso alguém queira vender alguma lembrança da Copa do Mundo ou Olimpíadas. Também haverá limitação na liberdade de manifestação e comunicação.
IHU On-Line – O dossiê denuncia a transferência de terras públicas para o setor privado através de parcerias público-privadas. Como isso está acontecendo?
Hertz Leal – Quanto à transferência de terras públicas, que deveriam ser preferencialmente utilizadas para construção de moradias de interesse social, o caso mais emblemático é o do Porto Maravilha, uma região com terrenos e prédios da administração portuária e da RFFSA. Mais de 70% da região é constituída de terras públicas que estão sendo repassadas para um consórcio de empreiteiras. Foi criado o Certificado de Potencial de Construção – CEPACS, que permite construir acima do gabarito, e a Caixa Econômica terminou comprando estes certificados com os recursos do FGTS. Trata-se de um valor mobiliário que poderá ser vendido no futuro para que o construtor possa obter licença para construir acima do gabarito. Mas a prefeitura não demarcou áreas de interesse social, nem exigiu a construção de moradias de interesse social. Pelo contrário, ainda está aterrorizando moradores do Morro da Providência para construir teleférico e plano inclinado. Para isso terá de destruir mais de 800 moradias. Apesar de terras públicas em abundância, não constroem as moradias, oferecem aluguel social ou Minha Casa Minha vida na zona oeste. A região da zona oeste é dominada por milícias e tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa.
IHU On-Line – O dossiê também menciona que os recursos da Copa do Mundo estão sendo distribuídos desigualmente entre os 20 municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro. Como acontece a distribuição dos recursos? Existe algum critério? Em que regiões do Rio de Janeiro se concentram os maiores investimentos da Copa do Mundo?
Hertz Leal – A distribuição dos investimentos segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito, e, como se trata da região do litoral, tem a preferência da classe média, onde são construídos os condomínios de luxo. O mapa da Unidade de Polícia Pacificadora – UPPs também contempla as regiões de investimentos para os megaeventos: a região sul, o centro e a região do Maracanã, embora os investimentos sociais (UPP social) ainda continuem nas promessas. Observamos principalmente a expulsão branca por conta do maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis. Quer dizer, tornaram insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos. Também continuam as políticas de expulsão ora alegando risco ou limites de preservação ambiental. Eles também perseguem os depósitos dos ambulantes e os pequenos comércios.
IHU On-Line – Quais as implicações de megaeventos como a Copa do Mundo e das Olimpíadas? Eles trazem mais benefícios ou prejuízos para a cidade?
Hertz Leal – A Copa do Mundo e Olimpíadas são eventos que estão possuídos de uma lógica capitalista em que o objetivo maior é fazer lucros com publicidade na transmissão para a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional – COI, que se associam com interesses da especulação imobiliária, capitais financeiros, com as corporações midiáticas e políticos que compartilham desses lucros para aumentarem os ganhos, pois realmente não percebemos melhoria nas atividades esportivas nas escolas nem melhoria na educação, tampouco na saúde. Percebemos que o legado será a militarização da cidade para proteger os lucros, com leis de exceção para dar segurança à Fifa e ao COI. Querem até que a União se responsabilize por eventuais prejuízos. Depois sobrarão dívidas para os cidadãos pagarem e provavelmente vão receitar austeridade e mais supressão de direitos para continuar garantindo as vantagens para os banqueiros, corporações e especuladores.
Vamos levar nossa experiência para a Cúpula dos Povos e discutir os caminhos do desenvolvimento que estão propostos nestes megaeventos, nesses megaprojetos e vamos buscar soluções e propostas para uma sociedade mais justa e com participação de todos.
O dossiê exclusivo feito pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro “ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas”, declara Hertz Leal à IHU On-Line. Segundo ele, a distribuição dos investimentos da Copa do Mundo “segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito”.
Leal reitera que os preparativos para a Copa do Mundo e as Olímpiadas desrespeitam os direitos humanos e a legislação prevista na Constituição, na Lei Orgânica e no Estatuto das Cidades. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele relata as irregularidades que estão ocorrendo no Rio de Janeiro por conta das desapropriações de terras, transferências de terras públicas para setores privados, e as arbitrariedades cometidas pelo poder público. De acordo com ele, as pessoas que tiveram suas terras desapropriadas foram deslocadas para conjuntos habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida que distam de 30 km e 60 km do local onde moravam. “O correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes”.
Leal enfatiza que, apesar da existência de terras públicas em abundância no estado do Rio de Janeiro, o governo não constrói moradias sociais e oferece “aluguel social ou Minha Casa Minha Vida na zona oeste”, a qual, segundo afirma, “é dominada por milícias”. “Tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa”.
O processo de higienização da cidade, conforme ele relata, ocorre também na região sul, no centro e no entorno do Maracanã. Por causa do “maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis”, torna-se “insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos”.
Hertz Leal estudou no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mas não concluiu o curso e foi ser quiosqueiro na praia de Ipanema. Segundo ele, a prefeitura retirou sua permissão para dar a concessão a uma empresa que detém todos os quiosques da orla marítima do Leme ao Pontal. “Fui expulso por não aceitar os contratos abusivos da concessionária Orla Rio, então retornei à atividade política com a cooperativa Orla Legal e participo do Movimento Unido dos Camelôs – MUCA e do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas desde o início em meados de 2010”. Atualmente Leal trabalha como funcionário público federal.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são as novidades apresentadas no dossiê organizado pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro?
Hertz Leal – A novidade é o aprofundamento das análises, pois o nosso Comitê vem da experiência do Comitê Social do Pan. Eu participava do Conselho Popular, uma entidade que se reúne na Pastoral de Favelas e conta também com a Rede de Comunidades Contra a Violência, e principalmente com as pessoas que estão sendo atingidas pelas remoções no Rio de Janeiro. No início de 2010, as remoções ocorriam em razão das chuvas do dia 6 de abril, quando várias pessoas ficaram desabrigadas. Mas, já no final de 2010, começaram a ocorrer as remoções por causa da construção da via Transoeste. A prefeitura começou a derrubar as casas das pessoas à noite, com tudo dentro: chegava a equipe do Choque de Ordem e mandava as pessoas saírem, não reconheciam direito algum, diziam que era área pública, que as residências eram ilegais e derrubavam tudo. Quando havia resistência, a Guarda Municipal arrancava as pessoas de suas casas, das suas lojas. Da Barra da Tijuca para o Recreio, eles aterrorizaram.
Existia uma Defensoria atuante, o Núcleo de Terras e Habitação – NUTH. Foram feitas várias denúncias. Foi encaminhada uma medida cautelar para a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos – OEA. O Comitê Popular da Copa ajudou a organizar a Missão da Plataforma Dhesca em maio de 2011, quando fomos visitar estas comunidades que estavam sendo arrancadas para construção da Transoeste e Transcarioca, além das remoções no Porto Maravilha (centro) e no Tabajaras (zona sul). O Dossiê parte desse relatório, mas temos diversas contribuições tais como a análise das leis de exceção, a modificação do Maracanã, a falta de transparência na apresentação dos dados, projetos e estudos de impactos ambientais e de vizinhança. O dossiê ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade, que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas.
IHU On-Line – Em que sentido os preparativos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas estão violando os direitos humanos? Pode nos relatar alguns casos?
Hertz Leal – Os preparativos para Copa do Mundo e Olimpíadas estão violando os direitos humanos na medida em que não respeitam o direito à moradia, o direito à cidade, pois temos uma legislação muito bem definida desde a Constituição, a Lei Orgânica, o Estatuto das Cidades, tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário. Ou seja, temos leis que determinam, em caso de desapropriação por interesse público, uma indenização justa e prévia. Mas deve-se considerar a moradia como um direito independente de propriedade; deve-se buscar o entendimento e o reassentamento no mesmo local. Depois desses escândalos e sucessivas denúncias, eles continuam oferecendo aluguel social num valor que não dá condições para alugar uma casa na mesma região. A maioria das casas oferecidas dos conjuntos Minha Casa Minha Vida distam de 30 a 60 km do local original, quando o correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, “chaves por chaves”, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes. Esses casos de desapropriação são parte das violações. Devemos ressaltar ainda as perseguições aos camelôs, a precarização do trabalho nas construções dos estádios e outras infraestruturas, o recolhimento compulsório das pessoas em situação de rua para abrigos distantes e sem uma adequada estrutura de atendimento.
Estamos preocupados com as leis de exceção que estão sendo criadas no intuito de conceder direitos de propriedade a marcas e símbolos que são utilizados naturalmente pelos comerciantes informais, ou seja, por aqueles que confeccionam lembranças da cidade e dos jogos e que não poderão ser utilizados. Pelo contrário, serão criminalizados caso alguém queira vender alguma lembrança da Copa do Mundo ou Olimpíadas. Também haverá limitação na liberdade de manifestação e comunicação.
IHU On-Line – O dossiê denuncia a transferência de terras públicas para o setor privado através de parcerias público-privadas. Como isso está acontecendo?
Hertz Leal – Quanto à transferência de terras públicas, que deveriam ser preferencialmente utilizadas para construção de moradias de interesse social, o caso mais emblemático é o do Porto Maravilha, uma região com terrenos e prédios da administração portuária e da RFFSA. Mais de 70% da região é constituída de terras públicas que estão sendo repassadas para um consórcio de empreiteiras. Foi criado o Certificado de Potencial de Construção – CEPACS, que permite construir acima do gabarito, e a Caixa Econômica terminou comprando estes certificados com os recursos do FGTS. Trata-se de um valor mobiliário que poderá ser vendido no futuro para que o construtor possa obter licença para construir acima do gabarito. Mas a prefeitura não demarcou áreas de interesse social, nem exigiu a construção de moradias de interesse social. Pelo contrário, ainda está aterrorizando moradores do Morro da Providência para construir teleférico e plano inclinado. Para isso terá de destruir mais de 800 moradias. Apesar de terras públicas em abundância, não constroem as moradias, oferecem aluguel social ou Minha Casa Minha vida na zona oeste. A região da zona oeste é dominada por milícias e tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa.
IHU On-Line – O dossiê também menciona que os recursos da Copa do Mundo estão sendo distribuídos desigualmente entre os 20 municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro. Como acontece a distribuição dos recursos? Existe algum critério? Em que regiões do Rio de Janeiro se concentram os maiores investimentos da Copa do Mundo?
Hertz Leal – A distribuição dos investimentos segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito, e, como se trata da região do litoral, tem a preferência da classe média, onde são construídos os condomínios de luxo. O mapa da Unidade de Polícia Pacificadora – UPPs também contempla as regiões de investimentos para os megaeventos: a região sul, o centro e a região do Maracanã, embora os investimentos sociais (UPP social) ainda continuem nas promessas. Observamos principalmente a expulsão branca por conta do maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis. Quer dizer, tornaram insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos. Também continuam as políticas de expulsão ora alegando risco ou limites de preservação ambiental. Eles também perseguem os depósitos dos ambulantes e os pequenos comércios.
IHU On-Line – Quais as implicações de megaeventos como a Copa do Mundo e das Olimpíadas? Eles trazem mais benefícios ou prejuízos para a cidade?
Hertz Leal – A Copa do Mundo e Olimpíadas são eventos que estão possuídos de uma lógica capitalista em que o objetivo maior é fazer lucros com publicidade na transmissão para a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional – COI, que se associam com interesses da especulação imobiliária, capitais financeiros, com as corporações midiáticas e políticos que compartilham desses lucros para aumentarem os ganhos, pois realmente não percebemos melhoria nas atividades esportivas nas escolas nem melhoria na educação, tampouco na saúde. Percebemos que o legado será a militarização da cidade para proteger os lucros, com leis de exceção para dar segurança à Fifa e ao COI. Querem até que a União se responsabilize por eventuais prejuízos. Depois sobrarão dívidas para os cidadãos pagarem e provavelmente vão receitar austeridade e mais supressão de direitos para continuar garantindo as vantagens para os banqueiros, corporações e especuladores.
Vamos levar nossa experiência para a Cúpula dos Povos e discutir os caminhos do desenvolvimento que estão propostos nestes megaeventos, nesses megaprojetos e vamos buscar soluções e propostas para uma sociedade mais justa e com participação de todos.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Nesta sexta-feira (27/04): Reunião de mobilização do "Chave por Chave" na Moab-Caldas
COPA SIM
MAS SEM
DESRESPEITAR DIREITOS
Continuam muitas incertezas.
Tudo é anunciado pela TV e pelos jornais, como se tudo estivesse bem combinado
com todos, mas o povo só tem dúvidas.
Além disso, a nossa
experiência nos mostrou que NADA SE CONQUISTA SEM LUTA, mesmo quando temos
governos populares que estão do nosso lado.
A pressão dos grandes, dos
especuladores imobiliários também é muito grande. A nossa região é vista como
um bom local para grandes negócios. É claro, para alguns. E a
nossa força está na nossa organização e no fortalecimento da nossa capacidade
de luta, que esta região da Grande Cruzeiro já mostrou que tem.
Venha defender seus direitos
e participe da construção de uma grande mobilização de todos que vão ser
atingidos pelas obras da Avenida Tronco de ponta a ponta:
- Não ao aluguel social. É CHAVE POR CHAVE!
- O valor do BÔNUS deve permitir alguém comprar uma casa na
região. O pessoal está propondo o valor mínimo de 80 mil reais.
REUNIÃO DE
MOBILIZAÇÃO:
27 de abril,
sexta, 19 horas, no Centro Comunitário
Av. Moab
Caldas - antiga Av. Tronco - Acesso 9, n° 484.
terça-feira, 24 de abril de 2012
MORADORES ATINGIDOS PELAS OBRAS DA TRONCO NO CRISTAL LANÇAM CAMPANHA "CHAVE POR CHAVE"
Moradores atingidos pelas obras da duplicação da Avenida Tronco, lideranças comunitárias, apoiadores e o Comitê Popular da Copa deram início à campanha "Chave por Chave" nas vilas Divisa e Cristal, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Nesse sábado (21/04), o grupo conversou com os moradores sobre a falta de proposta concreta da prefeitura para realocamento das famílias que serão removidas para a realização da obra. Também foi entregue um boletim informativo e foram colados cartazes nas casas das duas comunidades divulgando a campanha.
O objetivo da campanha "Chave por Chave" é pressionar a prefeitura a atender às reivindicações dos moradores das vilas Divisa e Cristal (ambas no bairro Cristal). A prefeitura planeja iniciar a duplicação da avenida ainda em Abril. No entanto, somente pretende dar início às obras para construir as moradias das famílias, que serão removidas devido à duplicação da avenida, em Outubro. Durante esse tempo, a prefeitura quer colocar as pessoas no aluguel social, sem garantia de que elas recebam de volta uma moradia no bairro Cristal - pois a vontade da maioria delas é permanecer na região. Além disso, nas áreas desapropriadas pela prefeitura na região, até o momento, serão construídos apenas apartamentos, o que não atende ao desejo e ao direito de muitas famílias, que querem permanecer morando em casas no bairro. As áreas desapropriadas no bairro foram indicadas pela Comissão de Moradores das vilas e somente foram adquiridas pela prefeitura depois que os moradores realizaram protestos exigindo as áreas no Cristal.Com a campanha, os moradores reafirmam uma das deliberações da assembleia comunitária realizada em Fevereiro passado, quando as famílias afirmaram que somente deixarão suas casas quando for concluída a construção das novas residências. Os moradores também reivindicam um bônus moradia de no mínimo R$ 80 mil, valor maior do que os R$ 52 mil oferecidos pela prefeitura, pois com este valor é muito difícil comprar moradias regularizadas na região, que está bastante valorizada.
A Campanha "Chave por Chave" será retomada na região no próximo sábado (28/04). Os direitos da população devem ser respeitados! Antes da avenida, é preciso as casas!
Fotos: Moradores, lideranças e Comitê Popular da Copa Cristal dão início à Campanha Chave por Chave.Crédito das fotos: Leandro Anton/Quilombo do Sopapo
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Neste domingo (22 de Abril): Caminhe com a Ocupação 20 de Novembro pelo direito à cidade
As famílias da Ocupação 20 de Novembro moram ao lado do Estádio Beira-Rio (sede da Copa do Mundo de 2014 em Porto Alegre) e estão sendo removidas pela prefeitura para a construção do estacionamento do estádio.
Ajude a divulgar! A luta é tod@s!
Conheça a 20 de Novembro: http://ocupacao20denovembro.blogspot.com.br/
Ancop protesta em stand do Comitê da Copa Fifa 2014 em Brasília
Na noite de quinta-feira, dia 19 de abril, a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa realizou uma manifestação na Bienal do Livro, em Brasília. Os manifestantes ocuparam o stand do Comitê da Copa Fifa 2014, que foi organizado pelo governo para mostrar para a população de Brasília o "magnífico legado da Copa 2014".
O grupo contou com representantes dos comitês populares de 11 das 12 cidades-sede da Copa, que estão reunidos na Capital Federal para uma oficina de vídeos. Os manifestantes levaram faixas com inscrições como "Copa sim, despejo não", "Não à Lei Geral da Copa" e "Estádio não é shopping". Enquanto distribuíam panfletos, receberam o apoio de muitos dos presentes na bienal, que cantaram e caminharam junto com os manifestantes.
Confira a nota distribuída à população:
Nota sobre o “Comitê da
Copa” na Bienal do Livro
|
A Articulação
Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP), reunida em Brasília entre os
dias 19 e 22 de abril, tomou conhecimento da realização da 1a Bienal
do Livro de Brasília e saúda com louvor iniciativas de promoção e socialização
do conhecimento e do acesso à cultura e à leitura.
Neste sentido,
a ANCOP, organização da sociedade civil que luta por diminuir os impactos
negativos da Copa do Mundo no Brasil, tem o prazer de ocupar a banca criada
pelo Governo do Distrito Federal (GDF) na Bienal caracterizada como “Comitê da
Copa”.
Infelizmente
esta ocupação não se deu a partir do diálogo democrático e saudável entre governo
e sociedade civil. Este diálogo inexiste, não só no DF, mas em todo o Brasil,
quando se trata de Copa do Mundo. A perspectiva do governo continua sendo a do
não acesso à informação, à divulgação falsa de informações e de tentar “vender”
um evento que cada dia mais retira direitos do povo, favorece a privatização, a
especulação imobiliária e promove o bilionário desvio de recursos e prioridades
públicas.
Lamentamos a
não abertura de diálogo por parte do governo do DF e demais órgãos
governamentais no sentido de promover o devido acesso à informação por parte da
população, ainda mais em um evento como a Bienal do Livro. E, no intuito de
colaborar com a precisão da informação - sentido importante de uma Bienal -
gostaríamos, nestas poucas horas em que ocuparemos o Comitê da Copa na Bienal (ainda que sem a permissão do GDF) apresentar
alguns dos legados que a Copa do Mundo vem trazer para o DF e o país.
a) 1 em cada
1.000 brasileiros(as) estão perdendo suas moradias em virtudes das obras da
Copa do Mundo e, até agora, a única iniciativa do governo federal foi de fazer
debate com o Banco Mundial no sentido de criar uma política oficial de
remoções, fortalecendo, portanto a criminalização e a retirada de direitos. Nos
níveis subfederais, a violência e falta de diálogo caminha num ritmo cada vez
mais forte.
b) As relações
obscuras com a FIFA fazem com que o país se subordine a uma empresa privada,
que coloca suas relações comerciais acima da soberania e constituição nacional,
forçando a aprovação da Lei Geral. Denunciamos esta Lei que, além de
inconstitucional, promove o monopólio dos lucros aos patrocinadores da FIFA e
retira direitos sociais do povo. A Lei Geral que hoje tramita no Congresso não
é necessária para a realização da Copa do Mundo. Ela não trata de esportes, mas
de negócios privados e retirada de direitos.
c)
Milhares de brasileiros trabalham arduamente nos estádios e não têm seus
direitos respeitados, não tendo sido atendidas as condições mínimas de
segurança. Os 12 estádios, que já consomem bilhões de recursos públicos (entre
gastos e isenções fiscais), poderiam ser destinados a outras ações sociais, no
entanto, também caminham para a privatização - o que levará ao aumento do valor
do ingresso, perda de liberdade do torcedor e do comércio e da cultura popular
ao redor do estádio;
d)
Num momento em que o setor público se prepara para receber a Lei de Acesso à
Informação, os mesmos governos continuam com a política da propaganda mentirosa
sobre a Copa, os acordos com a FIFA continuam inacessíveis à população,
favorecendo o jogo de influência nefasto e as chances de licitação fraudulentas
e superfaturadas.
e)
Temos ciência do impacto que o turismo com a Copa pode trazer para o país, mas
negamos as restrições de acesso e comércio ao povo brasileiro, que parece não
ser bem vindo à sua casa, bem como a política de segurança que, ao invés de
proteção, traz terror às comunidades e criminalização da pobreza, favorecendo a
especulação imobiliária e a privatização dos espaços públicos. Também
denunciamos a ausência de políticas de combate à exploração sexual e outras
medidas de empoderamento e promoção da cidadania.
Brasília, 19 de abril
de 2012.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Assembleia dos Moradores das Vilas Divisa e Cristal decide: É CHAVE POR CHAVE
Famílias atingidas pela duplicação da Avenida Tronco não deixarão suas casas antes de estarem prontas as residências para onde serão removidas.
A Prefeitura de Porto Alegre quer iniciar as obras de duplicação da Avenida Tronco (no bairro Cristal, Zona Sul da Capital) em Abril, mas até agora não disse para onde irão todas as famílias atingidas. E pior: nem sequer começou qualquer obra de construção de casas ou apartamentos populares para serem as novas moradias das pessoas. Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, as obras das moradias iniciam somente em outubro.
Leia no Boletim Informativo do Comitê Popular da Copa Cristal nº 4, de Abril de 2012, sobre a decisão tomada em Assembleia geral pelos moradores das Vilas Divisa e Cristal e um histórico da luta na região.
A Prefeitura de Porto Alegre quer iniciar as obras de duplicação da Avenida Tronco (no bairro Cristal, Zona Sul da Capital) em Abril, mas até agora não disse para onde irão todas as famílias atingidas. E pior: nem sequer começou qualquer obra de construção de casas ou apartamentos populares para serem as novas moradias das pessoas. Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, as obras das moradias iniciam somente em outubro.
Leia no Boletim Informativo do Comitê Popular da Copa Cristal nº 4, de Abril de 2012, sobre a decisão tomada em Assembleia geral pelos moradores das Vilas Divisa e Cristal e um histórico da luta na região.
Para ler ele completo na internet clique aqui.
Leia os demais boletins informativos do Comitê Popular da Copa Cristal para que possa acompanhar toda a trajetória de resistência e organização comunitária pela luta de seus Direitos à Cidade. Clique sobre cada número listado abaixo e acesso o conteúdo dos boletins, boa leitura!
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Oficina de Mapeamento Social do Comitê Popular da Copa de Porto Alegre
O Comitê Popular da Copa de Porto Alegre convida para Oficina de Mapeamento Social das obras da Copa em Porto Alegre nesta segunda-feira, dia 2, às 19h, na Sala 9 da Faculdade de Direito da Ufrgs.
O trabalho será coordenado pelo cientista político Sérgio Baierle, técnico da ONG Cidade.
O objetivo é identificar os conflitos gerados na cidade pelas obras da Copa do Mundo e as entidades envolvidas. Com isso, o comitê pretende elaborar um planejamento de ação.
A oficina é aberta a todos os interessados.
O trabalho será coordenado pelo cientista político Sérgio Baierle, técnico da ONG Cidade.
O objetivo é identificar os conflitos gerados na cidade pelas obras da Copa do Mundo e as entidades envolvidas. Com isso, o comitê pretende elaborar um planejamento de ação.
A oficina é aberta a todos os interessados.
Folha de S. Paulo: População das cidades-sedes já sente reflexos das obras para a Copa-14
BERNARDO ITRI - ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA E PORTO ALEGRE
EDUARDO OHATA - ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE, RIO E SALVADOR
MARIANA BASTOS - ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA, NATAL E RECIFE
RODRIGO MATTOS - ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA, CUIABÁ E MANAUS
Meia dúzia de moradores da região do entroncamento entre a rua Estrada Engenho da Pedra, Leopoldo Rego e Alfredo Barcelos, em Olaria, no Rio, conversam, tranquilos, ao redor da mesa de um bar.
Surpreende a tranquilidade, pois já foi publicado no "Diário Oficial " que aquela área será desapropriada para dar espaço à Transcarioca, obra de BRT (ônibus rápido) que ligará a Barra da Tijuca ao aeroporto do Galeão.
Um frequentador do bar, que se identificou como Fernando, justificou a tranquilidade: "As coisas mudaram ".
"As casas e prédios daqui valem muito. As obras não vão mais passar aqui [na rua Engenho da Pedra], elas foram lá para os lados da rua Uranos [no bairro de Ramos]. Não vai ser difícil você descobrir onde é, o lugar está cheio de faixas de protesto. "
Fica próxima ao Complexo do Alemão. E é uma amostra de como a Copa pode afetar a vida dos que moram no seu caminho. "Achávamos que a situação iria melhorar após a pacificação ", explica Fernando Paiva Santos, 40, economista, que tem um comércio em área a ser desapropriada.
Extra oficialmente, a prefeitura confirma a mudança de rota, que privilegia área mais abastada em detrimento a uma comunidade humilde. Faixas de protesto tentam conter os cartazes de "passa-se o ponto ". Os moradores da região se mobilizaram, foi aberto inquérito civil questionando o novo traçado.
A rota da Transcarioca era originalmente uma reta que se estendia da avenida Brasil até o bairro da Penha.
Agora, o formato do traçado foi alterado, aumentando consideravelmente o comprimento da obra.
A Prefeitura do Rio afirma que a mudança serviu para diminuir o número de desapropriações, e aponta que a rua Uranos abriga 220 imóveis desocupados.
Segundo a prefeitura, a realocação de pessoas que moravam em favelas para a construção da Transcarioca já totalizou 88 famílias.
Em Natal (RN), ocorre caso semelhante ao do Rio.
Um dos projetos de mobilidade urbana traz suspeitas de que o traçado de desapropriações favoreça grandes empreendimentos em detrimento de residências populares e de classe média.
Com o plano da prefeitura na mão, Marcos Reinaldo da Silva, membro da Associação Potiguar de Atingidos pela Copa, apontou quais imóveis seriam desapropriados e quais seriam poupados no alargamento da avenida Capitão-Mor Gouveia, que terá corredor de ônibus.
"O projeto prevê ampliação em 15 metros na largura da avenida.. A linha de desapropriação ora pende para o lado esquerdo da avenida, ora para o lado direito ", explica Marcos Reinaldo. "Dá para perceber que algumas empresas serão poupadas. "
Ele cita três exemplos: Guanabara e Cidade das Dunas, companhias de ônibus, e Marquise, empresa contratada pela própria prefeitura para fazer a coleta de lixo.
Segundo ele, o esboço prevê a desapropriação de 269 residências, 119 imóveis comerciais e 41 terrenos.
Outro que deve ser afetado é o Centro de Comercialização da Agricultura Familiar. A construção, de mais de R$ 3 milhões, foi bancada por verba estadual e federal.
O local jamais funcionou. No projeto mostrado por Marcos Reinaldo, o traçado das desapropriações da avenida passa sobre o imóvel.
"O projeto não vai acabar com o Centro de Comercialização de Agricultura Familiar ", garante Jean Valério, secretário municipal da Copa do Mundo em Natal.
Ele nega também que haja um traçado seletivo de desapropriações na avenida. "O projeto é linear e não escolhe que local vai desapropriar. A prefeitura vai readequar o plano para ter o mínimo de desapropriações. "
REMOÇÕES EM MASSA
Em Porto Alegre (RS), chama a atenção o número de famílias que terão de deixar suas casas por conta das obras da Copa-2014.
Levantamento do Comitê Popular de Porto Alegre estima que 6.000 famílias serão removidas.
"Não queremos que aconteça com a gente o que aconteceu com o Pinheirinho, em São Paulo ", diz José Araújo, líder dos moradores da Vila Cruzeiro, um dos bairros que mais devem ser afetados.
Segundo Araújo, uma das propostas da prefeitura é ceder casas em regiões distantes de onde a população vive atualmente. Haverá ainda a necessidade do pagamento de aluguel.
A Prefeitura de Porto Alegre diz que ainda não há uma estimativa de quantas famílias serão desapropriadas, mas que todas terão respaldo das autoridades.
Em Curitiba, cidade considerada modelo em transporte público, 1.500 famílias devem ser desapropriadas pelas obras de mobilidade.
A íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.
EDUARDO OHATA - ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE, RIO E SALVADOR
MARIANA BASTOS - ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA, NATAL E RECIFE
RODRIGO MATTOS - ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA, CUIABÁ E MANAUS
Meia dúzia de moradores da região do entroncamento entre a rua Estrada Engenho da Pedra, Leopoldo Rego e Alfredo Barcelos, em Olaria, no Rio, conversam, tranquilos, ao redor da mesa de um bar.
Surpreende a tranquilidade, pois já foi publicado no "Diário Oficial " que aquela área será desapropriada para dar espaço à Transcarioca, obra de BRT (ônibus rápido) que ligará a Barra da Tijuca ao aeroporto do Galeão.
Um frequentador do bar, que se identificou como Fernando, justificou a tranquilidade: "As coisas mudaram ".
"As casas e prédios daqui valem muito. As obras não vão mais passar aqui [na rua Engenho da Pedra], elas foram lá para os lados da rua Uranos [no bairro de Ramos]. Não vai ser difícil você descobrir onde é, o lugar está cheio de faixas de protesto. "
Fica próxima ao Complexo do Alemão. E é uma amostra de como a Copa pode afetar a vida dos que moram no seu caminho. "Achávamos que a situação iria melhorar após a pacificação ", explica Fernando Paiva Santos, 40, economista, que tem um comércio em área a ser desapropriada.
Extra oficialmente, a prefeitura confirma a mudança de rota, que privilegia área mais abastada em detrimento a uma comunidade humilde. Faixas de protesto tentam conter os cartazes de "passa-se o ponto ". Os moradores da região se mobilizaram, foi aberto inquérito civil questionando o novo traçado.
A rota da Transcarioca era originalmente uma reta que se estendia da avenida Brasil até o bairro da Penha.
Agora, o formato do traçado foi alterado, aumentando consideravelmente o comprimento da obra.
A Prefeitura do Rio afirma que a mudança serviu para diminuir o número de desapropriações, e aponta que a rua Uranos abriga 220 imóveis desocupados.
Segundo a prefeitura, a realocação de pessoas que moravam em favelas para a construção da Transcarioca já totalizou 88 famílias.
Em Natal (RN), ocorre caso semelhante ao do Rio.
Um dos projetos de mobilidade urbana traz suspeitas de que o traçado de desapropriações favoreça grandes empreendimentos em detrimento de residências populares e de classe média.
Com o plano da prefeitura na mão, Marcos Reinaldo da Silva, membro da Associação Potiguar de Atingidos pela Copa, apontou quais imóveis seriam desapropriados e quais seriam poupados no alargamento da avenida Capitão-Mor Gouveia, que terá corredor de ônibus.
"O projeto prevê ampliação em 15 metros na largura da avenida.. A linha de desapropriação ora pende para o lado esquerdo da avenida, ora para o lado direito ", explica Marcos Reinaldo. "Dá para perceber que algumas empresas serão poupadas. "
Ele cita três exemplos: Guanabara e Cidade das Dunas, companhias de ônibus, e Marquise, empresa contratada pela própria prefeitura para fazer a coleta de lixo.
Segundo ele, o esboço prevê a desapropriação de 269 residências, 119 imóveis comerciais e 41 terrenos.
Outro que deve ser afetado é o Centro de Comercialização da Agricultura Familiar. A construção, de mais de R$ 3 milhões, foi bancada por verba estadual e federal.
O local jamais funcionou. No projeto mostrado por Marcos Reinaldo, o traçado das desapropriações da avenida passa sobre o imóvel.
"O projeto não vai acabar com o Centro de Comercialização de Agricultura Familiar ", garante Jean Valério, secretário municipal da Copa do Mundo em Natal.
Ele nega também que haja um traçado seletivo de desapropriações na avenida. "O projeto é linear e não escolhe que local vai desapropriar. A prefeitura vai readequar o plano para ter o mínimo de desapropriações. "
REMOÇÕES EM MASSA
Em Porto Alegre (RS), chama a atenção o número de famílias que terão de deixar suas casas por conta das obras da Copa-2014.
Levantamento do Comitê Popular de Porto Alegre estima que 6.000 famílias serão removidas.
"Não queremos que aconteça com a gente o que aconteceu com o Pinheirinho, em São Paulo ", diz José Araújo, líder dos moradores da Vila Cruzeiro, um dos bairros que mais devem ser afetados.
Segundo Araújo, uma das propostas da prefeitura é ceder casas em regiões distantes de onde a população vive atualmente. Haverá ainda a necessidade do pagamento de aluguel.
A Prefeitura de Porto Alegre diz que ainda não há uma estimativa de quantas famílias serão desapropriadas, mas que todas terão respaldo das autoridades.
Em Curitiba, cidade considerada modelo em transporte público, 1.500 famílias devem ser desapropriadas pelas obras de mobilidade.
A íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.
terça-feira, 27 de março de 2012
Nota Pública de Repúdio à realização do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários
Foi com surpresa e consternação que ficamos sabendo do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários, atividade promovida pelo Ministério das Cidades e o Banco Mundial, em Brasília, nos dias 27 e 28 de março de 2012.
A programação do evento, que conta exclusivamente com agentes dos governos federal, estadual e municipal e técnicos convidados do Banco Mundial, sinaliza um compromisso em legitimar e suavizar as violações de direitos humanos que a população sofre em seu cotidiano em REMOÇÕES FORÇADAS, sob o termo eufemizado de “DESLOCAMENTOS INVOLUNTÁRIOS”.
Chama a atenção que os promotores do “Workshop”, ao esperarem “buscar soluções concretas para o Brasil no enfretamento dos desafios relacionados a deslocamentos involuntários” não dediquem nenhum momento para avaliar as causas concretas que levam às remoções ou para reconhecer que em diversos projetos do PAC e dos mega eventos (Copa e Olimpíadas) as remoções forçadas são completamente desnecessárias para seu objeto-fim.
Nesse sentido, o evento já se encontra formulado numa perspectiva conformista, ao evitar o debate fundamental sobre os impactos nocivos do modelo de desenvolvimento vigente nos direitos humanos. Ao implicitamente considerar os chamados “deslocamentos involuntários” como inevitáveis ou justificáveis, a proposta omite o caráter seletivo desses impactos, os quais atingem com maior intensidade precisamente populações e grupos sociais pobres e vulneráveis.
O evento ignora ainda que os problemas a que buscam soluções devem-se tanto a projetos viciados desde sua origem - ao entenderem a população afetada apenas como obstáculo no caminho do suposto “progresso”, - quanto a projetos cujo interesse nas remoções forçadas é a especulação imobiliária e o aburguesamento do espaço urbano como um todo. Enquanto o poder público permanecer refém desses interesses externos e da pseudotécnica do grande capital e dos “critérios” da FIFA e do COI para obras de infraestrutura, nada nos indica que a vida das pessoas, sua relação com o território e seus direitos não estarão ameaçados.
Na mesma medida, é importante reforçar que o Banco Mundial tem, historicamente, apoiado e financiado os mega eventos e mega projetos que desrespeitam os direitos dos grupos e comunidades citados acima. Apesar de todo o marketing que este Banco faz sobre a sua responsabilidade social e ambiental, muitas das suas ações contribuem para a fragilização dos mecanismos de controle social conquistados pela sociedade civil e impactam de modo severo e, às vezes, irreversível o meio ambiente e as populações.
Frente a esse viés, não é surpresa também que o evento ignore a participação das populações, movimentos sociais e as universidades brasileiras com um histórico de acompanhamento dos impactos das remoções forçadas no espaço urbano e rural brasileiro. Entendemos que esses seriam sujeitos necessários para uma reflexão séria sobre o tema, frente a frente com os secretários de governos, como os de São Paulo ou do Rio de Janeiro, promotores, respectivamente, do Massacre de Pinheirinho e de remoções forçadas ilegais associadas à realização da Copa em 2014 e da Olimpíada em 2016 na cidade do Rio de Janeiro.
Desse modo, repudiamos a realização desse "workshop" e suas decisões, enquanto iniciativas paliativas e de maquiagem para o problema das remoções forçadas no Brasil. Esperamos que o Ministério das Cidades, na figura de sua Secretaria Nacional de Habitação e demais órgãos, promova debates sérios e com a efetiva participação dos sujeitos sociais impactados (outros ministérios, fóruns e entidades de defesa dos direitos humanos, dentre outros), bem como construa ações alternativas às remoções forçadas – que por si só já são violentas -, garantindo o pleno direito das populações impactadas por obras de infraestrutura e reestruturação urbana.
Os interesses do povo brasileiro devem estar em primeiro lugar!
Não às remoções, pelo direito à moradia e ao território!
Assinam:
Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo)
Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria
Instituto Políticas Alternativas do Cone Sul (Pacs)
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
Pastoral Operária Nacional
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Rede Jubileu Sul
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