quarta-feira, 2 de maio de 2012

Copa do Mundo: está em curso um processo de “higienização” no Rio de Janeiro

O legado da Copa “será a militarização da cidade para proteger os lucros, com leis de exceção para dar segurança à Fifa e ao Comitê Olímpico Internacional”, diz o membro do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

O dossiê exclusivo feito pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro “ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas”, declara Hertz Leal à IHU On-Line. Segundo ele, a distribuição dos investimentos da Copa do Mundo “segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito”.

Leal reitera que os preparativos para a Copa do Mundo e as Olímpiadas desrespeitam os direitos humanos e a legislação prevista na Constituição, na Lei Orgânica e no Estatuto das Cidades. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele relata as irregularidades que estão ocorrendo no Rio de Janeiro por conta das desapropriações de terras, transferências de terras públicas para setores privados, e as arbitrariedades cometidas pelo poder público. De acordo com ele, as pessoas que tiveram suas terras desapropriadas foram deslocadas para conjuntos habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida que distam de 30 km e 60 km do local onde moravam. “O correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes”.

Leal enfatiza que, apesar da existência de terras públicas em abundância no estado do Rio de Janeiro, o governo não constrói moradias sociais e oferece “aluguel social ou Minha Casa Minha Vida na zona oeste”, a qual, segundo afirma, “é dominada por milícias”. “Tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa”.

O processo de higienização da cidade, conforme ele relata, ocorre também na região sul, no centro e no entorno do Maracanã. Por causa do “maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis”, torna-se “insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos”.

Hertz Leal estudou no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mas não concluiu o curso e foi ser quiosqueiro na praia de Ipanema. Segundo ele, a prefeitura retirou sua permissão para dar a concessão a uma empresa que detém todos os quiosques da orla marítima do Leme ao Pontal. “Fui expulso por não aceitar os contratos abusivos da concessionária Orla Rio, então retornei à atividade política com a cooperativa Orla Legal e participo do Movimento Unido dos Camelôs – MUCA e do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas desde o início em meados de 2010”. Atualmente Leal trabalha como funcionário público federal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as novidades apresentadas no dossiê organizado pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro? 

Hertz Leal – A novidade é o aprofundamento das análises, pois o nosso Comitê vem da experiência do Comitê Social do Pan. Eu participava do Conselho Popular, uma entidade que se reúne na Pastoral de Favelas e conta também com a Rede de Comunidades Contra a Violência, e principalmente com as pessoas que estão sendo atingidas pelas remoções no Rio de Janeiro. No início de 2010, as remoções ocorriam em razão das chuvas do dia 6 de abril, quando várias pessoas ficaram desabrigadas. Mas, já no final de 2010, começaram a ocorrer as remoções por causa da construção da via Transoeste. A prefeitura começou a derrubar as casas das pessoas à noite, com tudo dentro: chegava a equipe do Choque de Ordem e mandava as pessoas saírem, não reconheciam direito algum, diziam que era área pública, que as residências eram ilegais e derrubavam tudo. Quando havia resistência, a Guarda Municipal arrancava as pessoas de suas casas, das suas lojas. Da Barra da Tijuca para o Recreio, eles aterrorizaram.

Existia uma Defensoria atuante, o Núcleo de Terras e Habitação – NUTH. Foram feitas várias denúncias. Foi encaminhada uma medida cautelar para a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos – OEA. O Comitê Popular da Copa ajudou a organizar a Missão da Plataforma Dhesca em maio de 2011, quando fomos visitar estas comunidades que estavam sendo arrancadas para construção da Transoeste e Transcarioca, além das remoções no Porto Maravilha (centro) e no Tabajaras (zona sul). O Dossiê parte desse relatório, mas temos diversas contribuições tais como a análise das leis de exceção, a modificação do Maracanã, a falta de transparência na apresentação dos dados, projetos e estudos de impactos ambientais e de vizinhança. O dossiê ultrapassa a denúncia e demonstra o projeto de desenvolvimento, o projeto de cidade, que está presente nesta forma de conduzir as políticas públicas.

IHU On-Line – Em que sentido os preparativos para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas estão violando os direitos humanos? Pode nos relatar alguns casos?

Hertz Leal – Os preparativos para Copa do Mundo e Olimpíadas estão violando os direitos humanos na medida em que não respeitam o direito à moradia, o direito à cidade, pois temos uma legislação muito bem definida desde a Constituição, a Lei Orgânica, o Estatuto das Cidades, tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário. Ou seja, temos leis que determinam, em caso de desapropriação por interesse público, uma indenização justa e prévia. Mas deve-se considerar a moradia como um direito independente de propriedade; deve-se buscar o entendimento e o reassentamento no mesmo local. Depois desses escândalos e sucessivas denúncias, eles continuam oferecendo aluguel social num valor que não dá condições para alugar uma casa na mesma região. A maioria das casas oferecidas dos conjuntos Minha Casa Minha Vida distam de 30 a 60 km do local original, quando o correto seria construir os conjuntos habitacionais antes das remoções e no local onde ocorrem as intervenções urbanas, “chaves por chaves”, para garantir a continuidade dos estudos das crianças nas mesmas escolas, o tratamento dos idosos nos mesmos postos de saúde, a convivência com a rede de parentesco e de amigos que, em muitos casos, providenciam a solidariedade e os cuidados necessários às crianças, aos idosos e aos doentes. Esses casos de desapropriação são parte das violações. Devemos ressaltar ainda as perseguições aos camelôs, a precarização do trabalho nas construções dos estádios e outras infraestruturas, o recolhimento compulsório das pessoas em situação de rua para abrigos distantes e sem uma adequada estrutura de atendimento.

Estamos preocupados com as leis de exceção que estão sendo criadas no intuito de conceder direitos de propriedade a marcas e símbolos que são utilizados naturalmente pelos comerciantes informais, ou seja, por aqueles que confeccionam lembranças da cidade e dos jogos e que não poderão ser utilizados. Pelo contrário, serão criminalizados caso alguém queira vender alguma lembrança da Copa do Mundo ou Olimpíadas. Também haverá limitação na liberdade de manifestação e comunicação.

IHU On-Line – O dossiê denuncia a transferência de terras públicas para o setor privado através de parcerias público-privadas. Como isso está acontecendo?

Hertz Leal – Quanto à transferência de terras públicas, que deveriam ser preferencialmente utilizadas para construção de moradias de interesse social, o caso mais emblemático é o do Porto Maravilha, uma região com terrenos e prédios da administração portuária e da RFFSA. Mais de 70% da região é constituída de terras públicas que estão sendo repassadas para um consórcio de empreiteiras. Foi criado o Certificado de Potencial de Construção – CEPACS, que permite construir acima do gabarito, e a Caixa Econômica terminou comprando estes certificados com os recursos do FGTS. Trata-se de um valor mobiliário que poderá ser vendido no futuro para que o construtor possa obter licença para construir acima do gabarito. Mas a prefeitura não demarcou áreas de interesse social, nem exigiu a construção de moradias de interesse social. Pelo contrário, ainda está aterrorizando moradores do Morro da Providência para construir teleférico e plano inclinado. Para isso terá de destruir mais de 800 moradias. Apesar de terras públicas em abundância, não constroem as moradias, oferecem aluguel social ou Minha Casa Minha vida na zona oeste. A região da zona oeste é dominada por milícias e tivemos notícias de conjuntos habitacionais invadidos por estes grupos, além de notícias de que em muitos destes conjuntos são as milícias que organizam os condomínios. Nas eleições, estas milícias ajudam eleger os vereadores que corroboram esta política de higienização da cidade para os negócios olímpicos e os negócios da Copa da Fifa.

IHU On-Line – O dossiê também menciona que os recursos da Copa do Mundo estão sendo distribuídos desigualmente entre os 20 municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro. Como acontece a distribuição dos recursos? Existe algum critério? Em que regiões do Rio de Janeiro se concentram os maiores investimentos da Copa do Mundo?

Hertz Leal – A distribuição dos investimentos segue a lógica da especulação imobiliária, ou seja, concentra-se na Barra da Tijuca, onde o prefeito foi subprefeito, e, como se trata da região do litoral, tem a preferência da classe média, onde são construídos os condomínios de luxo. O mapa da Unidade de Polícia Pacificadora – UPPs também contempla as regiões de investimentos para os megaeventos: a região sul, o centro e a região do Maracanã, embora os investimentos sociais (UPP social) ainda continuem nas promessas. Observamos principalmente a expulsão branca por conta do maior rigor nas cobranças dos serviços de energia elétrica, TV a cabo, água e aumento dos aluguéis. Quer dizer, tornaram insustentável a moradia para os trabalhadores que ganham até três salários mínimos. Também continuam as políticas de expulsão ora alegando risco ou limites de preservação ambiental. Eles também perseguem os depósitos dos ambulantes e os pequenos comércios.

IHU On-Line – Quais as implicações de megaeventos como a Copa do Mundo e das Olimpíadas? Eles trazem mais benefícios ou prejuízos para a cidade?

Hertz Leal – A Copa do Mundo e Olimpíadas são eventos que estão possuídos de uma lógica capitalista em que o objetivo maior é fazer lucros com publicidade na transmissão para a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional – COI, que se associam com interesses da especulação imobiliária, capitais financeiros, com as corporações midiáticas e políticos que compartilham desses lucros para aumentarem os ganhos, pois realmente não percebemos melhoria nas atividades esportivas nas escolas nem melhoria na educação, tampouco na saúde. Percebemos que o legado será a militarização da cidade para proteger os lucros, com leis de exceção para dar segurança à Fifa e ao COI. Querem até que a União se responsabilize por eventuais prejuízos. Depois sobrarão dívidas para os cidadãos pagarem e provavelmente vão receitar austeridade e mais supressão de direitos para continuar garantindo as vantagens para os banqueiros, corporações e especuladores.

Vamos levar nossa experiência para a Cúpula dos Povos e discutir os caminhos do desenvolvimento que estão propostos nestes megaeventos, nesses megaprojetos e vamos buscar soluções e propostas para uma sociedade mais justa e com participação de todos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Nesta sexta-feira (27/04): Reunião de mobilização do "Chave por Chave" na Moab-Caldas


COPA SIM
MAS SEM DESRESPEITAR DIREITOS

Continuam muitas incertezas. Tudo é anunciado pela TV e pelos jornais, como se tudo estivesse bem combinado com todos, mas o povo só tem dúvidas.

Além disso, a nossa experiência nos mostrou que NADA SE CONQUISTA SEM LUTA, mesmo quando temos governos populares que estão do nosso lado.

A pressão dos grandes, dos especuladores imobiliários também é muito grande. A nossa região é vista como um bom local para grandes negócios. É claro, para alguns. E a nossa força está na nossa organização e no fortalecimento da nossa capacidade de luta, que esta região da Grande Cruzeiro já mostrou que tem.

Venha defender seus direitos e participe da construção de uma grande mobilização de todos que vão ser atingidos pelas obras da Avenida Tronco de ponta a ponta:

- Não ao aluguel social. É CHAVE POR CHAVE!
- O valor do BÔNUS deve permitir alguém comprar uma casa na região. O pessoal está propondo o valor mínimo de 80 mil reais.
 

REUNIÃO DE MOBILIZAÇÃO:
27 de abril, sexta, 19 horas, no Centro Comunitário
Av. Moab Caldas - antiga Av. Tronco - Acesso 9, n° 484.

terça-feira, 24 de abril de 2012

MORADORES ATINGIDOS PELAS OBRAS DA TRONCO NO CRISTAL LANÇAM CAMPANHA "CHAVE POR CHAVE"

Moradores atingidos pelas obras da duplicação da Avenida Tronco, lideranças comunitárias, apoiadores e o Comitê Popular da Copa deram início à campanha "Chave por Chave" nas vilas Divisa e Cristal, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Nesse sábado (21/04), o grupo conversou com os moradores sobre a falta de proposta concreta da prefeitura para realocamento das famílias que serão removidas para a realização da obra. Também foi entregue um boletim informativo e foram colados cartazes nas casas das duas comunidades divulgando a campanha.

O objetivo da campanha "Chave por Chave" é pressionar a prefeitura a atender às reivindicações dos moradores das vilas Divisa e Cristal (ambas no bairro Cristal). A prefeitura planeja iniciar a duplicação da avenida ainda em Abril. No entanto, somente pretende dar início às obras para construir as moradias das famílias, que serão removidas devido à duplicação da avenida, em Outubro. Durante esse tempo, a prefeitura quer colocar as pessoas no aluguel social, sem garantia de que elas recebam de volta uma moradia no bairro Cristal - pois a vontade da maioria delas é permanecer na região. Além disso, nas áreas desapropriadas pela prefeitura na região, até o momento, serão construídos apenas apartamentos, o que não atende ao desejo e ao direito de muitas famílias, que querem permanecer morando em casas no bairro. As áreas desapropriadas no bairro foram indicadas pela Comissão de Moradores das vilas e somente foram adquiridas pela prefeitura depois que os moradores realizaram protestos exigindo as áreas no Cristal.

Com a campanha, os moradores reafirmam uma das deliberações da assembleia comunitária realizada em Fevereiro passado, quando as famílias afirmaram que somente deixarão suas casas quando for concluída a construção das novas residências. Os moradores também reivindicam um bônus moradia de no mínimo R$ 80 mil, valor maior do que os R$ 52 mil oferecidos pela prefeitura, pois com este valor é muito difícil comprar moradias regularizadas na região, que está bastante valorizada.

A Campanha "Chave por Chave" será retomada na região no próximo sábado (28/04).  Os direitos da população devem ser respeitados! Antes da avenida, é preciso as casas!


Fotos: Moradores, lideranças e Comitê Popular da Copa Cristal dão início à Campanha Chave por Chave.Crédito das fotos: Leandro Anton/Quilombo do Sopapo

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Neste domingo (22 de Abril): Caminhe com a Ocupação 20 de Novembro pelo direito à cidade

As famílias da Ocupação 20 de Novembro moram ao lado do Estádio Beira-Rio (sede da Copa do Mundo de 2014 em Porto Alegre) e estão sendo removidas pela prefeitura para a construção do estacionamento do estádio.

Segue o convite. Traga tua família, teus amigos, colegas e parcerias. Traga teu apoio!
Ajude a divulgar! A luta é tod@s!



Conheça a 20 de Novembro: http://ocupacao20denovembro.blogspot.com.br/

Ancop protesta em stand do Comitê da Copa Fifa 2014 em Brasília


Na noite de quinta-feira, dia 19 de abril, a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa realizou uma manifestação na Bienal do Livro, em Brasília. Os manifestantes ocuparam o stand do Comitê da Copa Fifa 2014, que foi organizado pelo governo para mostrar para a população de Brasília o "magnífico legado da Copa 2014". 

O grupo contou com representantes dos comitês populares de 11 das 12 cidades-sede da Copa, que estão reunidos na Capital Federal para uma oficina de vídeos. Os manifestantes levaram faixas com inscrições como "Copa sim, despejo não", "Não à Lei Geral da Copa" e "Estádio não é shopping". Enquanto distribuíam panfletos, receberam o apoio de muitos dos presentes na bienal, que cantaram e caminharam junto com os manifestantes.

Confira a nota distribuída à população:   

Nota sobre o “Comitê da Copa” na Bienal do Livro


Comitê Popular-DF
 
Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa


A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP), reunida em Brasília entre os dias 19 e 22 de abril, tomou conhecimento da realização da 1a Bienal do Livro de Brasília e saúda com louvor iniciativas de promoção e socialização do conhecimento e do acesso à cultura e à leitura.

Neste sentido, a ANCOP, organização da sociedade civil que luta por diminuir os impactos negativos da Copa do Mundo no Brasil, tem o prazer de ocupar a banca criada pelo Governo do Distrito Federal (GDF) na Bienal caracterizada como “Comitê da Copa”.

Infelizmente esta ocupação não se deu a partir do diálogo democrático e saudável entre governo e sociedade civil. Este diálogo inexiste, não só no DF, mas em todo o Brasil, quando se trata de Copa do Mundo. A perspectiva do governo continua sendo a do não acesso à informação, à divulgação falsa de informações e de tentar “vender” um evento que cada dia mais retira direitos do povo, favorece a privatização, a especulação imobiliária e promove o bilionário desvio de recursos e prioridades públicas.

Lamentamos a não abertura de diálogo por parte do governo do DF e demais órgãos governamentais no sentido de promover o devido acesso à informação por parte da população, ainda mais em um evento como a Bienal do Livro. E, no intuito de colaborar com a precisão da informação - sentido importante de uma Bienal - gostaríamos, nestas poucas horas em que ocuparemos o Comitê da Copa na Bienal  (ainda que sem a permissão do GDF) apresentar alguns dos legados que a Copa do Mundo vem trazer para o DF e o país.

a) 1 em cada 1.000 brasileiros(as) estão perdendo suas moradias em virtudes das obras da Copa do Mundo e, até agora, a única iniciativa do governo federal foi de fazer debate com o Banco Mundial no sentido de criar uma política oficial de remoções, fortalecendo, portanto a criminalização e a retirada de direitos. Nos níveis subfederais, a violência e falta de diálogo caminha num ritmo cada vez mais forte.

b) As relações obscuras com a FIFA fazem com que o país se subordine a uma empresa privada, que coloca suas relações comerciais acima da soberania e constituição nacional, forçando a aprovação da Lei Geral. Denunciamos esta Lei que, além de inconstitucional, promove o monopólio dos lucros aos patrocinadores da FIFA e retira direitos sociais do povo. A Lei Geral que hoje tramita no Congresso não é necessária para a realização da Copa do Mundo. Ela não trata de esportes, mas de negócios privados e retirada de direitos.

            c) Milhares de brasileiros trabalham arduamente nos estádios e não têm seus direitos respeitados, não tendo sido atendidas as condições mínimas de segurança. Os 12 estádios, que já consomem bilhões de recursos públicos (entre gastos e isenções fiscais), poderiam ser destinados a outras ações sociais, no entanto, também caminham para a privatização - o que levará ao aumento do valor do ingresso, perda de liberdade do torcedor e do comércio e da cultura popular ao redor do estádio;

            d) Num momento em que o setor público se prepara para receber a Lei de Acesso à Informação, os mesmos governos continuam com a política da propaganda mentirosa sobre a Copa, os acordos com a FIFA continuam inacessíveis à população, favorecendo o jogo de influência nefasto e as chances de licitação fraudulentas e superfaturadas.

            e) Temos ciência do impacto que o turismo com a Copa pode trazer para o país, mas negamos as restrições de acesso e comércio ao povo brasileiro, que parece não ser bem vindo à sua casa, bem como a política de segurança que, ao invés de proteção, traz terror às comunidades e criminalização da pobreza, favorecendo a especulação imobiliária e a privatização dos espaços públicos. Também denunciamos a ausência de políticas de combate à exploração sexual e outras medidas de empoderamento e promoção da cidadania.

Brasília, 19 de abril de 2012.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Assembleia dos Moradores das Vilas Divisa e Cristal decide: É CHAVE POR CHAVE

Famílias atingidas pela duplicação da Avenida Tronco não deixarão suas casas antes de estarem prontas as residências para onde serão removidas.


A Prefeitura de Porto Alegre quer iniciar as obras de duplicação da Avenida Tronco (no bairro Cristal, Zona Sul da Capital) em Abril, mas até agora não disse para onde irão todas as famílias atingidas. E pior: nem sequer começou qualquer obra de construção de casas ou apartamentos populares para serem as novas moradias das pessoas. Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, as obras das moradias iniciam somente em outubro.


Leia no Boletim Informativo do Comitê Popular da Copa Cristal nº 4, de Abril de 2012, sobre a decisão tomada em Assembleia geral pelos moradores das Vilas Divisa e Cristal e um histórico da luta na região. 

Para ler ele completo na internet clique aqui.

Leia os demais boletins informativos do Comitê Popular da Copa Cristal para que possa acompanhar toda a trajetória de resistência e organização comunitária pela luta de seus Direitos à Cidade. Clique sobre cada número listado abaixo e acesso o conteúdo dos boletins, boa leitura!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Oficina de Mapeamento Social do Comitê Popular da Copa de Porto Alegre

O Comitê Popular da Copa de Porto Alegre convida para Oficina de Mapeamento Social das obras da Copa em Porto Alegre nesta segunda-feira, dia 2, às 19h, na Sala 9 da Faculdade de Direito da Ufrgs.


O trabalho será coordenado pelo cientista político Sérgio Baierle, técnico da ONG Cidade.


O objetivo é identificar os conflitos gerados na cidade pelas obras da Copa do Mundo e as entidades envolvidas. Com isso, o comitê pretende elaborar um planejamento de ação.


A oficina é aberta a todos os interessados.

Folha de S. Paulo: População das cidades-sedes já sente reflexos das obras para a Copa-14

BERNARDO ITRI - ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA E PORTO ALEGRE
EDUARDO OHATA - ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE, RIO E SALVADOR
MARIANA BASTOS - ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA, NATAL E RECIFE

RODRIGO MATTOS - ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA, CUIABÁ E MANAUS


Meia dúzia de moradores da região do entroncamento entre a rua Estrada Engenho da Pedra, Leopoldo Rego e Alfredo Barcelos, em Olaria, no Rio, conversam, tranquilos, ao redor da mesa de um bar.


Surpreende a tranquilidade, pois já foi publicado no "Diário Oficial " que aquela área será desapropriada para dar espaço à Transcarioca, obra de BRT (ônibus rápido) que ligará a Barra da Tijuca ao aeroporto do Galeão.


Um frequentador do bar, que se identificou como Fernando, justificou a tranquilidade: "As coisas mudaram ".


"As casas e prédios daqui valem muito. As obras não vão mais passar aqui [na rua Engenho da Pedra], elas foram lá para os lados da rua Uranos [no bairro de Ramos]. Não vai ser difícil você descobrir onde é, o lugar está cheio de faixas de protesto. "


Fica próxima ao Complexo do Alemão. E é uma amostra de como a Copa pode afetar a vida dos que moram no seu caminho. "Achávamos que a situação iria melhorar após a pacificação ", explica Fernando Paiva Santos, 40, economista, que tem um comércio em área a ser desapropriada.


Extra oficialmente, a prefeitura confirma a mudança de rota, que privilegia área mais abastada em detrimento a uma comunidade humilde. Faixas de protesto tentam conter os cartazes de "passa-se o ponto ". Os moradores da região se mobilizaram, foi aberto inquérito civil questionando o novo traçado.


A rota da Transcarioca era originalmente uma reta que se estendia da avenida Brasil até o bairro da Penha.


Agora, o formato do traçado foi alterado, aumentando consideravelmente o comprimento da obra.


A Prefeitura do Rio afirma que a mudança serviu para diminuir o número de desapropriações, e aponta que a rua Uranos abriga 220 imóveis desocupados.


Segundo a prefeitura, a realocação de pessoas que moravam em favelas para a construção da Transcarioca já totalizou 88 famílias.


Em Natal (RN), ocorre caso semelhante ao do Rio.


Um dos projetos de mobilidade urbana traz suspeitas de que o traçado de desapropriações favoreça grandes empreendimentos em detrimento de residências populares e de classe média.


Com o plano da prefeitura na mão, Marcos Reinaldo da Silva, membro da Associação Potiguar de Atingidos pela Copa, apontou quais imóveis seriam desapropriados e quais seriam poupados no alargamento da avenida Capitão-Mor Gouveia, que terá corredor de ônibus.


"O projeto prevê ampliação em 15 metros na largura da avenida.. A linha de desapropriação ora pende para o lado esquerdo da avenida, ora para o lado direito ", explica Marcos Reinaldo. "Dá para perceber que algumas empresas serão poupadas. "


Ele cita três exemplos: Guanabara e Cidade das Dunas, companhias de ônibus, e Marquise, empresa contratada pela própria prefeitura para fazer a coleta de lixo.


Segundo ele, o esboço prevê a desapropriação de 269 residências, 119 imóveis comerciais e 41 terrenos.


Outro que deve ser afetado é o Centro de Comercialização da Agricultura Familiar. A construção, de mais de R$ 3 milhões, foi bancada por verba estadual e federal.


O local jamais funcionou. No projeto mostrado por Marcos Reinaldo, o traçado das desapropriações da avenida passa sobre o imóvel.
"O projeto não vai acabar com o Centro de Comercialização de Agricultura Familiar ", garante Jean Valério, secretário municipal da Copa do Mundo em Natal.
Ele nega também que haja um traçado seletivo de desapropriações na avenida. "O projeto é linear e não escolhe que local vai desapropriar. A prefeitura vai readequar o plano para ter o mínimo de desapropriações. "


REMOÇÕES EM MASSA


Em Porto Alegre (RS), chama a atenção o número de famílias que terão de deixar suas casas por conta das obras da Copa-2014.


Levantamento do Comitê Popular de Porto Alegre estima que 6.000 famílias serão removidas.
"Não queremos que aconteça com a gente o que aconteceu com o Pinheirinho, em São Paulo ", diz José Araújo, líder dos moradores da Vila Cruzeiro, um dos bairros que mais devem ser afetados.


Segundo Araújo, uma das propostas da prefeitura é ceder casas em regiões distantes de onde a população vive atualmente. Haverá ainda a necessidade do pagamento de aluguel.


A Prefeitura de Porto Alegre diz que ainda não há uma estimativa de quantas famílias serão desapropriadas, mas que todas terão respaldo das autoridades.


Em Curitiba, cidade considerada modelo em transporte público, 1.500 famílias devem ser desapropriadas pelas obras de mobilidade.


íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nota Pública de Repúdio à realização do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários

Foi com surpresa e consternação que ficamos sabendo do Workshop Internacional sobre Deslocamentos Involuntários, atividade promovida pelo Ministério das Cidades e o Banco Mundial, em Brasília, nos dias 27 e 28 de março de 2012.

A programação do evento, que conta exclusivamente com agentes dos governos federal, estadual e municipal e técnicos convidados do Banco Mundial, sinaliza um compromisso em legitimar e suavizar as violações de direitos humanos que a população sofre em seu cotidiano em REMOÇÕES FORÇADAS, sob o termo eufemizado de “DESLOCAMENTOS INVOLUNTÁRIOS”.

Chama a atenção que os promotores do “Workshop”, ao esperarem “buscar soluções concretas para o Brasil no enfretamento dos desafios relacionados a deslocamentos involuntários” não dediquem nenhum momento para avaliar as causas concretas que levam às remoções ou para reconhecer que em diversos projetos do PAC e dos mega eventos (Copa e Olimpíadas) as remoções forçadas são completamente desnecessárias para seu objeto-fim. 

Nesse sentido, o evento já se encontra formulado numa perspectiva conformista, ao evitar o debate fundamental sobre os impactos nocivos do modelo de desenvolvimento vigente nos direitos humanos. Ao implicitamente considerar os chamados “deslocamentos involuntários” como inevitáveis ou justificáveis, a proposta omite o caráter seletivo desses impactos, os quais atingem com maior intensidade precisamente populações e grupos sociais pobres e vulneráveis.

O evento ignora ainda que os problemas a que buscam soluções devem-se tanto a projetos viciados desde sua origem - ao entenderem a população afetada apenas como obstáculo no caminho do suposto “progresso”, - quanto a projetos cujo interesse nas remoções forçadas é a especulação imobiliária e o aburguesamento do espaço urbano como um todo. Enquanto o poder público permanecer refém desses interesses externos e da pseudotécnica do grande capital e dos “critérios” da FIFA e do COI para obras de infraestrutura, nada nos indica que a vida das pessoas, sua relação com o território e seus direitos não estarão ameaçados. 

Na mesma medida, é importante reforçar que o Banco Mundial tem, historicamente, apoiado e financiado os mega eventos e mega projetos que desrespeitam os direitos dos grupos e comunidades citados acima. Apesar de todo o marketing que este Banco faz sobre a sua responsabilidade social e ambiental, muitas das suas ações contribuem para a fragilização dos mecanismos de controle social conquistados pela sociedade civil e impactam de modo severo e, às vezes, irreversível o meio ambiente e as populações.

Frente a esse viés, não é surpresa também que o evento ignore a participação das populações, movimentos sociais e as universidades brasileiras com um histórico de acompanhamento dos impactos das remoções forçadas no espaço urbano e rural brasileiro. Entendemos que esses seriam sujeitos necessários para uma reflexão séria sobre o tema, frente a frente com os secretários de governos, como os de São Paulo ou do Rio de Janeiro, promotores, respectivamente, do Massacre de Pinheirinho e de remoções forçadas ilegais associadas à realização da Copa em 2014 e da Olimpíada em 2016 na cidade do Rio de Janeiro.  

Desse modo, repudiamos a realização desse "workshop" e suas decisões, enquanto iniciativas paliativas e de maquiagem para o problema das remoções forçadas no Brasil. Esperamos que o Ministério das Cidades, na figura de sua Secretaria Nacional de Habitação e demais órgãos, promova debates sérios e com a efetiva participação dos sujeitos sociais impactados (outros ministérios, fóruns e entidades de defesa dos direitos humanos, dentre outros), bem como construa ações alternativas às remoções forçadas – que por si só já são violentas -, garantindo o pleno direito das populações impactadas por obras de infraestrutura e reestruturação urbana.

Os interesses do povo brasileiro devem estar em primeiro lugar!
Não às remoções, pelo direito à moradia e ao território!

Assinam: 
Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo)
Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria
Instituto Políticas Alternativas do Cone Sul (Pacs) 
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
Pastoral Operária Nacional
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Rede Jubileu Sul

Seminário dá voz aos moradores prejudicados pelas obras da Copa


Painel contou com uma diversidade de público, onde se fizeram presentes, desde moradores das vilas de Porto Alegre, como acadêmicos e professores | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
André Carvalho - SUL21
O Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFRGS teve suas dependências totalmente ocupadas, na noite desta segunda-feira (26), por um público extremamente diversificado. Eram desde moradores de diversas vilas e morros de Porto Alegre, impactados pelas obras da Copa do Mundo de 2014, até professores e acadêmicos, das mais diversas áreas, interessados em discutir o Direito à Moradia, no painel “Direito à Moradia e Copa do Mundo”, da IV Semana de Direitos Humanos, Cidadania e Acesso à Justiça (SDH).
Durante aproximadamente três horas, lideranças das comunidades atingidas de alguma maneira pela Copa do Mundo expuseram para o público presente as necessidades e dificuldades enfrentadas para que lhes sejam garantidos o direito constitucional à moradia.
Seu Darci, do Morro Santa Teresa | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“O Morro Santa Teresa é o nosso lar há 50 anos”
Darci Campos dos Santos, morador do Morro Santa Teresa há mais de 30 anos, narrou a luta de resistência dos moradores do local contra o PL 388/2009, elaborado no governo Yeda, que pretendia vender o morro, uma área pública, para a construção de condomínios de edifícios privados. “É claro que o projeto tinha a intenção de despejar os moradores que moram ali. Só que nós nos organizamos e resistimos. Ora, somos quase 20 mil famílias morando lá. Se nos tirassem de lá, onde iriamos morar?”, denunciou Darci.
Apesar dessa vitória, a luta continua para os moradores do Morro Santa Teresa, que hoje combatem pela regularização fundiária do local, visto que em áreas públicas não têm direito a usucapião. “Seguiremos resistindo pelo direito de morar onde moramos. Já faz quase 50 anos que o morro é o nosso lar. Se perdermos nossas casas, seremos mais mendigos morando debaixo das pontes, nossos filhos serão mais bandidos nas ruas”, destacou.
Ao final, Seu Darci aproveitou para falar das contradições da lógica política de nossa cidade: “Quando os políticos falam na TV que Porto Alegre precisa de mais segurança porque ela tá muito perigosa, eles esquecem que foram eles que assinaram um PL pra despejar as pessoas de suas moradias, porque lá é área de risco. Quer dizer, nas áreas de risco não pode morar pobre, mas pode morar rico”.
Seu Zé, da da Divisa Cruzeiro-Cristal | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Não somos contra a Copa, mas queremos que seja respeitado o nosso direito à moradia”
Já José Raimundo Fachel Araujo, ou o Seu Zé, morador da Divisa Cruzeiro-Cristal, demonstrou a sua decepção com o poder público, que assinou o decreto do alargamento da Avenida Moab Caldas, como justificativa de melhorias de mobilidade para a Copa do Mundo, porém, ameaçando a remoção das famílias moradoras do local.
Assim como Seu Darci, do Morro Santa Teresa, Seu Zé demonstrou que a população daquela área está disposta a resistir. “Eles vêm com aquele engodo do ‘Minha Casa, Minha Dívida’ (ironizando o projeto federal Minha Casa, Minha Vída), que a gente vai para um lugar melhor, mas a gente não quer sair de lá. Só que a gente terá que pagar aluguel, gastar com a condução, não teremos saúde, segurança, escolas. Nós não vamos sair daquela área. Pra nos tirar dali, eles têm que nos dar tudo que nos é direito”, garantiu.
Ao final de sua fala, Seu Zé denunciou o Prefeito José Fortunati, que recentemente disse à imprensa que os moradores da Vila eram baderneiros, pois estavam contra o alargamento e contra a Copa. “Nós não somos contra a Copa, nem contra o alargamento da avenida, mas queremos o direito de viver dignamente, em uma casa, num local onde tenha posto de saúde, escola, lugar pras crianças brincarem. Infelizmente a mídia nunca nos dá o direito a voz, daí fica a nossa voz calada, contra a do prefeito”.
Dona Marilsa, da Vila São Pedro | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“O diálogo do poder público com as comunidades tem que ser na mesma língua”
Representando os moradores da Vila São Pedro, Marilsa d´Ávila criticou o poder público por não saber dialogar com a população. “Queremos que as pessoas falem a nossa língua”, destacou.
Segundo ela, a comunidade tem diversas dificuldade nas reuniões de conciliação, pois os advogados e os promotores, falam expressões ou palavras que não são compreensíveis para os moradores da vila. “às vezes passava 2, 3h de reunião e os moradores não compreendiam nada”, contou.
“Certa vez, em uma reunião com o Ministério Público, me disseram: ‘a pauta da reunião é essa e essa’, aí eu disse: ‘Mas o que é pauta?’. Meu conhecimento é balde, vassoura, panela”, narrou Marilsa, com um humilde sorriso de quem não tem vergonha em perguntar. “É difícil lutar pelos direitos se não temos o conhecimento. Prefiro passar por ignorante do que fingir que entendia”, completou.
Seu Luis, da Vila Chocolatão | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Os governantes trocam o direito à moradia do cidadão pelo direito ao carro do indivíduo”
Em um breve discurso, José Luis Ferreira, morador da Vila Chocolatão, recentemente removida do centro da capital para o final da Avenida Protásio Alves, criticou a ação que retirou mais de duzentas famílias que viviam da coleta e reciclagem do lixo da região central da cidade, mandando-os para a Vila Mario Quintana, na região periférica, a mais de 10km do centro e tendo a somar os problemas existentes do novo local.
“A realocação não foi justa. Foi sim, imoral. Nós ocupamos o terreno da Chocolatão, que pertencia ao tribunal, mas agora eles inventaram que queriam fazer um estacionamento. Legal, tem que estacionar os carros, né? Mas com essa justificativa, nos mandaram para o outro lado da cidade”, apontou Seu Luis.
Ao criticar a situação da remoção – que foi debatida judicialmente, com argumentos nos âmbitos legais da causa, de um lado, e do justo, do outro –, Seu Luis terminou sua fala deixando para os estudantes de Direito, a questão para a reflexão: “Vocês que estão estudando direito e serão os novos homens da lei, vão estudar para ser a favor da legalidade, ou a favor da justiça?”.
Ceniriani Vargas da Silva, da Ocupação 20 de Novembro | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“A Copa do Mundo atropela todos os direitos a mando da FIFA”
A última fala da noite foi da Ceniriani Vargas da Silva, da Ocupação 20 de Novembro e integrante do MNLM (Movimento Nacional de Luta pela Moradia). Ela preferiu denunciar as incoerências legislativas que estão ocorrendo por causa da Copa do Mundo. “Os governantes estão atropelando as leis municipais, estaduais, federais, os direitos humanos, os direitos ambientais, tudo para impor as regras e as vontades da FIFA”. E completou: “É um absurdo que um país sério como o nosso diz ser, tenha um congresso que discuta a Lei Geral da Copa juntamente com o Código Florestal. Uma coisa virou moeda de troca da outra”.
Ceniriani criticou a política de “higienização social” por parte dos órgãos públicos, para com a camada pobre da sociedade. “Sabe quando tu vai receber uma visita e esconde aquilo que não quer que ela veja? Pois é, a política de ‘higienização social’ é a mesma coisa. Varreram os ‘problemas’, ‘a sujeira’, nos mandando para as periferias. Mas nós temos um vinculo com a região em que moramos e de onde querem nos desalojar”, reclamou.
Ao final, ela agradeceu a oportunidade de finalmente poder discutir a questão de maneira séria e real. “Quando entro na faculdade sempre penso que aqui é o mundo de Matrix, porque a discussão sobre a Copa do Mundo parece ser de um mundo paralelo”, brincou.