quarta-feira, 23 de março de 2011

Pau e Circo: Copa, Olimpíadas, Movimentos Sociais e Cidade de Exceção


Megaeventos como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos estão associados, hoje em dia, à execução de grandes projetos de intervenção urbana. A organização desses grandes eventos passa a fazer parte de um tipo de modelo de planejamento urbano, o “empresariamento urbano”.

Intervenções pontuais, capazes de estimular uma renovação urbana e o aburguesamento em diferentes áreas de cidade, são parte fundamental da estratégia do empresariamento urbano. Essas áreas da cidade, valorizadas por obras de infra-estrutura e pela proximidade de equipamentos esportivos, para atrair investimentos e novos negócios, tornam-se palco de despejos e remoções dos moradores pobres, de rua e de habitações irregulares, da repressão aos trabalhadores de rua, ambulantes etc. A cidade também precisa ser livre de conflitos e, para tanto, a repressão policial objetiva intimidar e impedir as manifestações dos críticos e atingidos pelas mudanças.

Copa, Olimpíadas e o Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, os efeitos desse modelo já podem ser percebidos. Todos os projetos de intervenção urbana são voltados para os megaeventos esportivos. Afinal, serão alguns dias de grande divulgação da imagem da cidade, e a propaganda é a alma do negócio. O que está sendo negociado, porém, é bem concreto: são os terrenos públicos e privados que poderiam ser usados para habitação popular. 

Estão sendo negociadas isenções de impostos para os investimentos do capital, enquanto faltam recursos para saúde e educação. Estão sendo negociados novas leis e parâmetros urbanísticos que atendam às grandes cadeias internacionais de hotéis, e que garantam também que os pobres serão removidos para bem longe. Estão sendo negociados mais uma reforma do Maracanã, outra do Sambódromo, além da construção, com dinheiro público, de vilas olímpicas para atletas, árbitros, mídia etc, de forma que as construtoras recebam todos os benefícios, aluguem esses quartos para o poder público antes e durante os eventos, e depois os vendam para os ricos e especuladores. 

Planejamento? Apenas para a elaboração de um cardápio de possíveis intervenções urbanas que serão postas em prática conforme o capital compre ou não cada projeto, através das parcerias público privadas (PPPs). Democracia? Apenas para o capital, que diretamente decide o que e onde será realizado, construído ou utilizado na e da cidade.

Em suma, está sendo negociada a cidade, e com ela todos seus recursos e os direitos dos seus moradores e trabalhadores. E, se flexibilização e desregulamentação são palavras mágicas para o capital e o neoliberalismo, elas são, agora, aplicadas também às cidades. Argumentam que vivemos um momento excepcional, que prazos para obras precisam ser cumpridos para que o Rio e o Brasil não passem vergonha. 

O resultado é a instauração de uma cidade de exceção. Cidade onde leis de licitações, limites de endividamento, leis que regulam os parâmetros urbanos, leis fiscais, ambientais, e mesmo as garantias dos direitos individuais e coletivos são flexibilizadas conforme o gosto do freguês (investidores).

Cadê o social do BNDES? Entrevista especial com Gabriel Strautman


O economista Gabriel Strautman é enfático ao criticar o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES às grandes obras de infraestrutura no país e, principalmente, os megaeventos planejados para acontecerem no Brasil nos próximos anos. 

A principal questão levantada por Strautman na entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone é a falta de transparência do banco quanto aos projetos que ele financia, tanto no que diz respeito aos juros aplicados quanto aos métodos de avaliação dos projetos aprovados. “O BNDES tem buscado fazer com que as indústrias que ele apoia se transformem em empresas orientadas para a globalização, com capacidade de disputar mercados globais. Portanto, não estamos falando de diversificação da economia doméstica, de maior integração regional dentro do país”, relatou.

Gabriel Strautman é economista formado pela Universidade de Brasília e mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente, é o secretário executivo da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais.

Clique em mais informações e confira a entrevista. 

terça-feira, 22 de março de 2011

A Copa de 2014 e o Direito à Moradia em Porto Alegre

*Jacques Távora Alfonsin 

As muitas vantagens que o desenho urbanístico de Porto Alegre pode ganhar com a realização da Copa do Mundo de futebol de 2014, tem sido apregoadas pela mídia como indiscutíveis. É como se o evento tivesse caído do céu e as oportunidades de mudança para melhor não pudessem ser desperdiçadas.

A se acreditar no que tem sido publicado, tudo gira em torno de uma palavra de sentido tão ambíguo na sua formulação quanto ambivalente nos seus efeitos: recuperação. “Recuperação do cais do porto”, “recuperação da orla do Guaíba”, “recuperação do morro Santa Tereza”, para se lembrar apenas os projetos mais salientados que estão querendo sair das pranchetas dos planejadores urbanos.



Essa publicidade extremamente bem preparada e arrazoada, os novos edifícios, as praças, os jardins, as vias públicas, os espaços de lazer, brilham de sedução e conveniência, enchem de esperança qualquer um/a que sonhe substituir o velho pelo novo e o feio pelo bonito. A liberdade de iniciativa econômica - especialmente a que impulsiona as imobiliárias e empresas construtoras - que historicamente não deixa de se impor à liberdade política, está vivendo uma expectativa promissora de muitos negócios e lucro abundante.

Até agora, ao que se saiba, lá onde vivem hoje milhares de famílias de trabalhadoras/es pobres, exercendo o seu direito à moradia, diretamente afetadas por essa poderosa iniciativa de intervenção no solo urbano, não mereceram uma lembrancinha que pudesse abafar esse ruído intenso de hábil aliciamento da opinião alheia.

Entre recuperar um lugar da cidade para enxotar quem lá vive e mora, e recuperá-lo para satisfazer necessidades vitais desse mesmo povo, do tipo casa, luz, água, esgoto, vias de acesso, escola, posto de saúde, entorno urbanístico seguro e limpo, a primeira alternativa nem tomou conhecimento, até agora, da segunda.

Morro Santa Teresa pede regularização e preservação

Claudete Barcellos - Câmara de Vereadores

 Foto: Elson Sempé Pedroso
A regularização fundiária das vilas situadas no Morro Santa Teresa e vizinhas da sede da Fase, foi a principal reivindicação apresentada pelo presidente da Associação da Vila Gaúcha, Darci Campos dos Santos, na Tribuna Popular da sessão desta segunda-feira (21/3) da Câmara Municipal de Porto Alegre. O líder comunitário dividiu o espaço com a representante do Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa, Kátia Marko, para pedir também a criação de um parque público com o objetivo de preservar a vegetação nativa remanescente.

Campos informou que mais de 20 mil pessoas vivem no topo do morro, algumas há mais de 60 anos. "Vivo há 30 anos no morro, criei nove filhos lá", disse. Se formos despejados, vamos morar onde? De baixo da ponte?" O presidente da associação garantiu que a comunidade "tem todo o cuidado para não derrubar nenhuma árvore". Segundo ele, depois da retirada do projeto do governo do Estado que previa a permuta da área da Fase com a iniciativa privada e a remoção de famílias, agora a preocupação é obter a regularização da área e serviços básicos adequados. "Lutamos por moradia digna, não temos água e esgoto bons", afirmou.


Kátia lembrou que o projeto que previa a permuta de uma área de 74 hectares no Morro só foi retirado graças a um movimento que reuniu moradores, ambientalistas, entidades e instituições públicas, como a Câmara. De acordo com Kátia, o fato de 20 mil pessoas viverem no local e a existência de 50% da vegetação pertencer ao bioma pampa, abrigando 17 espécies protegidas, impulsionaram a luta em defesa do Morro. Os próximos passos, segundo ela, são promover a regularização das vilas, a descentralização da Fase e a criação de um parque.


Essas medidas são defendidas na Carta de Intenções lançada pelo Movimento e disponível no site www.omorroenosso.com.br. “Não é possível rotular de invasoras pessoas que moram há 50 anos naquela área; elas são as mais indicadas para continuar preservando”, frisou. Kátia ainda convidou os vereadores a participarem da primeira caminhada orientada de 2011 pelo Morro, a partir das 10 horas de sábado.


Logo após a Tribuna Popular, foi inaugurada a exposição Morro Santa Teresa: História e Movimento Social – A luta pela preservação contada por seus protagonistas. A mostra está montada no saguão do Plenário Otávio Rocha da Câmara (Avenida Loureiro da Silva, 255) e pode ser visitada até 25 de março, dentro da Semana dos 239 Anos de Porto Alegre.

Obedecendo à FIFA, Internacional decide reformar o Beira Rio com parceira

Jorge Seadi - Sul 21
 
A primeira reunião da comissão de 13 conselheiros que vai acompanhar as obras de reformulação do Beira-Rio, presidida pelo presidente Giovanni Luigi, será realizada hoje (22), no final da tarde, no próprio estádio do Internacional. Esta comissão, formada ontem durante reunião do Conselho Deliberativo, vai tratar inicialmente da licitação para as empresas interessadas em fazer a parceria com o clube nas obras do estádio. Depois que a empresa parceira for escolhida, a comissão vai acompanhar o andamento das obras.

A reunião do conselho, nesta segunda-feira, definiu que o clube vai concluir as obras de reforma do estádio — 15% já estão prontas com recursos próprios — com uma construtora parceira. Nos próximos 15 dias, o clube vai receber propostas de empresas interessadas em fazer a obra em troca da exploração de novas áreas do estádio por um tempo máximo de 20 anos. Uma exigência da diretoria é que seja com preço fechado. Nestas condições apenas a empreiteira Andrade Gutierrez tomou a proposta do Internacional a um custo de R$ 290 milhões.

Segundo o presidente do Inter, Giovanni Luigi, a partir de agora a FIFA deverá entender que o clube precisa de tempo para definir a parceria “e espero que a partir de agora tenhamos o entendimento de que o Inter está seguindo um caminho que busca dar garantias para a conclusão da obra”.

Depois de receber as propostas, a comissão vai escolher a melhor delas e terá um prazo de 30 a 40 dias para a assinatura do contrato. Até lá as obras continuam, confirmou o executivo do clube, Aod Cunha. Desde o final do ano passado a empresa Tedesco vem tocando as obras do Beira Rio com o Internacional bancando com dinheiro da venda do Estádio dos Eucaliptos. Até agora foram feitas as fundações na parte externa do estádio que servirão de base para a cobertura e também as fundações de 25% das arquibancadas inferiores que serão totalmente refeitas.

A previsão é de que o Estádio Beira Rio, inaugurado no dia 6 de abril de 1969, esteja pronto no final de 2012 atendendo todas as exigências da FIFA. Se isto acontecer, o Beira Rio poderá ser sede também da Copa das Confederações, torneio patrocinado pela FIFA com seleções campeãs dos cinco continentes e que serve como uma prévia da Copa do Mundo que será disputada 1 ano depois.

O Estádio Beira Rio terá capacidade para 60 mil pessoas, totalmente coberto. Todos os assentos serão numerados. A arquibancada inferior ficará muito mais próxima do campo de jogo, avançando três metros na área que hoje fica próxima ao fosso.

Com informações do SC Internacional

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tribuna Popular e Exposição na Câmara de Vereadores relembram luta do Morro Santa Teresa

O Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa convida para Tribuna Popular e a abertura da Exposição sobre o Morro Santa Teresa na Câmara de Vereadores de Porto Alegre nesta segunda-feira, dia 21, às 14h.

A Tribuna Popular será ocupada por representante do movimento e das associações de moradores das vilas para resgatar a luta realizada em 2010 contra a venda da área da FASE e expor os três objetivos que norteiam a defesa do Morro Santa Teresa:
regularização fundiária e urbanização das comunidades, reestruturação da FASE e um parque ambiental.

Logo após, às 14h30, será inaugurada a exposição com 22 painéis com a história do morro, a resistência das comunidades e a criação do Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa.


Representantes das Associações dos Moradores do Morro Santa Teresa participam das reuniões do Comitê Popular da Copa Cristal.

quinta-feira, 17 de março de 2011

“Nenhum cidadão de Porto Alegre pode ser prejudicado pela Copa”, afirma professor da UFRGS

Ana Lúcia Mohr - GT Comunicação

Especialistas afirmam que, caso houvesse vontade política, seria possível realocar atingidos por obras da Copa em locais próximos onde residem hoje.

Foto: Leandro Silva
O GT Comunicação dos Comitês Popular da Copa de Porto Alegre organizou a primeira entrevista coletiva de uma série prevista para debater os impactos das obras da Copa 2014. Nesta entrevista na ONG Cidade, Sergio Gregorio Baierle, cientista político e consultor do Cidade (Centro de Assessoria e Estudos Urbanos) e João Farias Rovati, professor Doutor no Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR/UFRGS) foram sabatinados por um grupo de comunicadores populares.

Em sua exposição inicial, Baierle falou das obras da Copa e seus “números” (dinheiro gasto, pessoas removidas). Conforme ele, há uma mitologia em torno dos grandes eventos, promessas que servem como justificativa para a realização das obras. Rovati falou do legado, de a Copa ser uma oportunidade única. “De fato, esse legado pode ser bom ou pode ser muito ruim. No entanto, a experiência histórica mostra que a Copa foi mais problema que solução”. Ele aponta como uma das causas disso a falta de planejamento urbano, que até a década de 70 visava resolver os problemas causados pelo mercado. Com o advento do neoliberalismo, a lógica mudou: seu mote era atrair investimentos. “Qual é o papel da Secretaria de Planejamento Urbano? Eles já não tinham poder de decisão, agora menos ainda, já que tem a Secretaria da Copa!”, disse.

“O fato é que, apesar de não sabermos qual será o estádio, os políticos já assumiram a responsabilidade. O presidente da República é o avalista das obras”. Rovatti aposta que, caso faltem recursos privados, o poder público não hesitará em injetar mais recursos. “Sim, mais ainda. O volume de recursos até agora: dois anos inteiros do orçamento da cidade de Porto Alegre”.
Rovati chamou atenção para a necessidade da “organização social”. Colocou três pautas de luta: fortalecer a estrutura de planejamento urbano, com servidores bem pagos; transporte coletivo de qualidade; e saneamento – despoluir o Guaíba (coisa que fica só na promessa). 

Mobilidade urbana

Foto: Leandro Silva
Segundo Baierle, este eixo compreende duplicação de vias (Av Tronco, Beira-Rio, Padre Cacique, Voluntários), prolongamento da Severo Dullius (entre Dique e Assis Brasil), portais da cidade, complexo da Rodoviária, ampliação do aeroporto, aeromóvel, plano diretor Cicloviário, Rodovia do Parque, Rodovia do Progresso e início do metrô.

Os dois entrevistados concordam que seria possível reassentar as populações envolvidas próximo ao seu antigo local de moradia. Há espaço para isso. No entanto, o poder público alega que seria muito oneroso fazê-lo, já que os valores dos terrenos ao redor são muito altos. Esse argumento esconde um outro problema do poder público, que não consegue controlar os preços dos imóveis. Mesmo assim, afirmam que o custo do reassentamento do jeito que está sendo feito (enviando as pessoas para a Restinga, Lomba do Pinheiro e zona Nordeste) deve custar muito mais aos cofres públicos a longo prazo. Segundo eles, a infra-estrutura dessa zona já é insuficiente para a população atual, ao passo que nos locais de moradia atual as pessoas já contam com a infra-estrutura, não será preciso construir mais escolas, hospitais, creches.

Remoção da Vila Dique       

Lucimar Siqueira, geógrafa da ONG Cidade, falou especificamente sobre o caso da Vila Dique, que foi pauta do Jornal do Almoço (RBSTV) de ontem (16). Segundo ela, deveriam ser reassentadas mais de 1400 famílias. No entanto somente 434 foram removidas para a ampliação da pista do aeroporto. Destas, muitas foram levadas para Casas de Passagem e ali devem permanecer até que suas casas fiquem prontas (essas não apareceram no Jornal do Almoço).

Lucimar visitou essas casas e as fotografou. Ao mostrá-las na coletiva deixou os presentes estarrecidos. Ninguém soube denominar o material de que são feitos esses barracos. “É compensado?”, chutou alguém. Não. “Esse é um material que eu não via há muitos anos!”, exclamou o professor Rovati. E as pessoas terão que ficar nessas casas por quanto tempo? Essa é uma pergunta que ninguém soube responder.


Os moradores da Vila Chocolatão, expropriada pela Justiça, como lembrou um dos presentes na entrevista, também poderiam ser realocados nas proximidades de onde estão hoje. O preconceito fez com que fossem “empurrados” lá pro fim da Protásio Alves, acentuando sua vulnerabilidade social, já que não terão acesso às políticas públicas.

Baierle fez uma analogia dos Portais da Cidade com os portões de um castelo. A ideia é proteger a cidade da população, tornando o consumo o único ato social não passível de criminalização. Ou seja, quem não tem dinheiro fica de fora da festa.

Expropriação 

Baierle apontou que todos esses casos têm em comum a expropriação, que ocorre respaldada por um consenso construído pela mídia. Fazem uma campanha e depois uma pesquisa de opinião pública. Isso aconteceu no caso dos camelôs. “A opinião é um produto”, sintetiza. E a informação é produzida de maneira desigual. Por exemplo? Até hoje as pessoas que moram na Av. Tronco (Moab Caldas) não sabem se a obra passará por suas casas, pois não têm acesso ao traçado das obras.

Além disso, enquanto essas “grandiosas obras” são realizadas, problemas antigos permanecem sem solução. Segundo o Orçamento Participativo (2005-2009) há 205 demandas ligadas à questão habitacional, das quais apenas 32 (16%) estão concluídas. Esse problema não seria muito difícil de resolver, uma vez que o déficit habitacional da cidade corresponde ao número de imóveis desocupados. 

“As reformas de que se falava na década de 1980 não foram realizadas. Hoje se fazem várias conferências, tudo fica no espaço de interação”, aponta Baierle. 

Mas Rovati adverte: “Não adianta chorar, temos que fazer alguma coisa”. “Nenhum cidadão de Porto Alegre pode ser prejudicado pela Copa”. A cidade está mercantilizada? Sim, está. Mas temos que protagonizar uma resistência. E mais: uma “resistência que não seja triste, resignada”. “Quem quer ciclovia? O Plano da Ciclovia está aprovado. É lei. Mas quem está disposto a dedicar uma hora do seu sábado para lutar por isso?”, provoca.

Remoção para obras preocupa especialistas em habitações


Jornal do Comércio
 
Duplicação da avenida Tronco deve começar em até um ano.

Aproximadamente 10 mil famílias de Porto Alegre e Canoas podem ser removidas de suas casas devido às obras previstas para a Copa do Mundo de 2014,entre elas a duplicação da avenida Tronco e a construção da Rodovia do Parque. O destino que será dado a essas pessoas causa preocupação aos membros da ONG Cidade, que estuda os problemas habitacionais de Porto Alegre.

Segundo Sérgio Baierle, cientista político da ONG, a maioria das áreas de interesse social mapeadas pela prefeitura de Porto Alegre, para onde deverão ser removidas as famílias, está localizada nos pontos extremos da Capital, e não contam com a infraestrutura necessária para atender às necessidades dessas populações. "É uma ilusão achar que é barato remover para as periferias ao invés de urbanizar as áreas que essas famílias já ocupam", afirma. A indefinição do destino das famílias também preocupa o cientista político. "No caso da avenida Tronco, por exemplo, as famílias ainda não sabem qual será o traçado da via, nem para onde serão removidas, mas mesmo assim o início da obra é esperado para menos de um ano", alerta. 

Baierle lembra que, embora degradadas, as áreas ocupadas pelas famílias que devem ser removidas possuem um acesso às redes de serviços da cidade, como eletricidade, esgotos e água. "Já nas periferias é preciso investir na consolidação da cidade, e todas essas redes precisariam ser construídas do nada nesses novos espaços distantes", comenta. 

De acordo com o cientista político, as famílias teriam oportunidade de ser alojadas em locais próximos de todas as áreas que atualmente ocupam. No entanto, isso não ocorre por falta de interesse do poder público ou mesmo por pressão de moradores vizinhos. "No caso da Vila Nazaré, removida para a extensão do aeroporto, não era necessário levar a população para a região Nordeste da cidade. O que houve foi um movimento de discriminação da população do bairro Lindóia que impediu que fossem destinadas para uma área mais próxima", afirmou.

Para o professor João Rovatti, da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, esses problemas são um dos exemplos da falta de planejamento urbano adequado na cidade. "Seria importante que a Copa do Mundo gerasse um fortalecimento da preocupação com essa área", disse. Segundo Rovatti, existe um consenso das autoridades em torno do legado positivo da Copa, mas poucos lembram que as obras para o evento podem gerar uma herança negativa para diversos setores da população. "Temos que nos preocupar em adaptar a Copa à cidade, e não o contrário", destacou.

Para debater o tema das remoções das famílias para as obras da Copa, será realizada no dia 25 de março, às 14h, uma audiência pública no Auditório Dante Barone, na Assembleia Legislativa. Promovido pelo Ministério Público Federal, o encontro contará com a presença de representantes do Ministério Público Estadual, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, do Governo do Estado, e dos habitantes das áreas atingidas. 

MPF aponta irregularidades na realocação da Vila Chocolatão

Na manhã desta quarta-feira, dia 16, um encontro no Ministério Público Federal reuniu as Secretarias do município, representantes do MPF, como o Procurador da República Dr. Alexandre Amaral Gavronski, representantes da AGB e SAJU, representantes da cúpula do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, representantes da prefeitura e representante da UNESCO.
Na reunião foi decidida a suspensão da retirada das famílias da Vila Chocolatão do local onde se encontra atualmente até que todos os direitos fundamentais sejam garantidos. Vale dizer que a comunidade possui, no centro, amplo acesso à geração de renda e demais direitos básicos. Existe a possibilidade de assinatura de Termo de Compromisso, responsabilizando os órgãos municipais frente às promessas e garantias necessárias para um reassentamento decente. 

Membros do GAJUP, grupo que atua no Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU) da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentaram na ocasião um minucioso laudo técnico, feito em parceria com a Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB), detalhando falhas nessa tentativa de remoção que se mantidas causarão irremediável retrocesso social.

Hoje os moradores da vila Chocolatão moram no centro de Porto Alegre, onde muitos trabalham como catadores. De acordo com o Projeto de Realocação, a vila será removida para o final da Avenida Protásio Alves, nº 9.099, local próximo a inúmeros assentamentos irregulares e carente de  equipamentos públicos, que já se encontram saturados em vista da alta densidade populacional.

Romário diz que denúncias são "sérias" e quer ouvir Teixeira

Johanna Nublat e Filipe Coutinho - Folha

O deputado Romário (PSB-RJ) disse nesta quarta-feira que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, deve ir à Câmara dos Deputados responder às acusações do deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), que quer uma CPI para investigar a organização da Copa-2014.

Romário disse que vai apresentar, na próxima semana, um requerimento para convidar Teixeira a explicar as "sérias acusações" apresentadas por Garotinho. "Um esclarecimento dele na comissão seria, hoje, bem mais positivo que uma CPI."

O comparecimento, porém, não afasta de todo a possibilidade da CPI. "Dependendo do que ele responder, a CPI pode não ter nenhum motivo [de ser instalada]. Se a resposta não for convincente, a gente terá mais que nunca a certeza da necessidade dela", disse o ex-craque da seleção.
Em discurso na Câmara, Garotinho disse que Ricardo Teixeira é o chefe de uma "quadrilha que assalta os cofres públicos". No requerimento para instalar a CPI, o deputado afirma que devem ser investigadas supostas "denúncias de irregularidades da composição societária do Comitê Organizador Local; no critério de divisão dos lucros da Copa e nos acordos firmados entre a CBF e as redes de tevê e patrocinadores".

Na tarde desta quarta-feira, Ricardo Teixeira foi à Câmara para pressionar o PR a abortar o pedido de Garotinho para abrir uma CPI. É necessário o apoio de 171 deputados.

A pressão de Ricardo Teixeira para frear Garotinho, entretanto, não surtiu efeito. "Ricardo Teixeira veio dizer ao PR que não é um bom momento para abrir uma CPI enquanto o país organiza uma Copa. O partido decidiu que vai liberar os deputados para decidirem como quiserem. Nem vamos incentivar a CPI, nem vamos punir quem for a favor", disse o líder do PR, Lincoln Portela (MG).